Terça-feira, 3 de Junho de 2008

Sardinha, a Quinta do Bispo – Porquê? (II)

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.485 – 1/Janeiro /1999

Conversas Soltas

 

 

 

         Dedico estes comentários de hoje, a todos quantos me têm apoiado, – e são bastantes – e que simbolizo na pessoa do senhor Arlindo Sousa Pinto, que não conheço, mas a quem estou grata por ver como entende as minhas razões, e a quem devo estima.

Dedico ainda, e também, a João Carpinteiro e António Rodrigues, que muito estimo desde há dezenas de anos, por razões que eles próprios intuirão...    

Dedico também a quem comprou a Quinta empenhando a sua palavra na afirmação de que a habitaria e nunca a destruiria... (e, já até, a terá vendido a um cidadão espanhol - garantem-me!)

Dedico ainda ao actual senhor Presidente da Câmara, pela evidência de como, usa os quase setenta por cento de votos que tão generosamente lhe foram confiados, confundindo serviço, com mando....

Faço-o sem rancor, sem arrogância, – faço-o com a humildade de quem com a idade aprendeu, que é sempre tempo de repensarmos as nossas próprias acções e, as nossas próprias palavras.

       Pertenço a uma geração em que palavra, honra, dever, dignidade, eram valores pelos quais se vivia e lutava.

       Pertenço a uma geração em que não era preciso ser ilustre para perseguir tais ideais – bastava para tal, a consciência de ser gente, para se e pugnar para ser pessoa de bem. Gente credível, gente de compromisso.

.        Quando alguém pronunciava essas tais palavras, todos sabíamos que elas significavam sentimentos, compromissos, que representavam esses valores.

         Hoje, estão esvaziadas de sentido.

Perseguem-se ideais diferentes. Tomam-se por ideais valores materiais e com eles se pretendem substituir os valores morais. As pessoas são as mesmas. Têm as mesmas capacidades, as mesmas potencialidades. Apenas põem a tónica no imediatismo, na pressa desenfreada, na ilusão de que todos podem colher tudo ainda que o não tenham semeado, ou que nada semeiem.

Substituiu-se a decisão moral pela decisão política, que devendo continuar a ser ainda e principalmente decisão moral, se despe desse atributo para passar a ser apenas decisão de oportunidade ou, pior ainda, apenas de oportunismo. O brilho muitas vezes cega. Ofusca até a qualidade do material que brilha, mas seduz, embora também iluda.

Este ano está no fim.

O frio impera.

         A chuva chegou finalmente, apetece sentar ao lume e contar histórias. Não me vou furtar à invocação de um elvense – o senhor Alves – que eu conheci quando era estudante no liceu de Beja e ele era um velho Senhor, cheio de dignidade que percorria os bairros pobres protegendo os necessitados, recolhendo crianças órfãs, despojando-se de tudo em favor de quem precisasse.

O senhor Alves pertencia a uma família Abébora. Gente de meios que habitava uma grande casa na rua de Alcamin. Cresceu com a psicologia do menino rico inútil. Frio, altivo, arrogante. Ganhou fama e proveito de conquistador e usou e abusou de mulheres e moças quantas quis. Até que um dia comprometeu a filha de alguém que foi capaz de o “acordar”. Fê-lo sob um terrível estado de embriaguez. Quando sóbrio, ao tomar conhecimento dos excessos cometidos e das suas consequências prometeu sob palavra de honra que jamais na sua boca entraria uma só gota de álcool que fosse.

         Quando no fim da vida ao ser-lhe ministrado um novo medicamento. Não tendo já capacidade para ler a sua composição indagou o que continha e ao ser-lhe dito que continha vinho do Porto disse: não tomo nem que daí dependa a minha morte. É que eu prometi a” um homem de bem “que na minha boca jamais entraria álcool.

         Eram assim os caminhos da dignidade...Da honra...Da palavra empenhada.

         Penso e repenso no que vejo e ouço acontecer...

Às vezes, muitas vezes, nem já se põem em causa as decisões tomadas, mas, sim, os caminhos que a elas conduziram. 

           

    O ano de 98 despede-se. Ponho algumas das estrofes da Epifania dos lilases de António Sardinha a perfumar o seu adeus e com elas, também agradeço a quem me lê desejando um muito feliz 99.

 

 

Florescem os lilases brandamente,

florescem os lilases com brandura.

E o seu perfume tépido, envolvente,

de tentações povoa a noite escura.

 

De tentações povoa a noite lenta

o aroma dos lilases em segredo.

Há no silêncio um bafo que adormenta,

um bafo perturbante de bruxedo.

 

 

         FELIZ 1999

        Maria José Rijo

 

sinto-me:
publicado por Maria José Rijo às 23:40
| comentar
4 comentários:
De Xavier Martins a 4 de Junho de 2008 às 01:51
Realmente a Senhora tem aqui um blog daqueles
que há poucos.
Sinceridade, honestidade a cima de tudo e sobre
tudo. As suas palavras são brilhantes, os seus
textos repletos da mais pura verdade- até me
faltam as palavras - as justas - essas que estão
na boca de quem tem coração e cabeça para pensar.

Mais um textos que me atingiu com a verdade - mais
um texto repleto de tudo o teve de ser dito na hora
certa.
A Dona Maria José tem aqui um blog que me
agrada de sobremaneira.
Gostp dos temas aqui tratados e em especial
Adoro esta sua forma especial de falar e conversar.

Bem haja
por mais esta maravilha

Seu muito admirador
Xavier Martins
De Anónimo a 6 de Maio de 2009 às 16:26
Boa tarde

O senhor Alves a que se refere era o sr. Manuel Joaquim Alves Abêbora?
A "filha de alguém" era a mãe da notária de Cuba, M.ª José Alves?
Se se confirmarem estas questões, acrescento que o sr. Alves era casado em Elvas com Natália Augusto Luciano Alves, de quem teve três filhos, João, Stela e Lydia.
O pai do sr. Alves era o lavrador João Alves Abêbora, que morava na rua dos Falcatos n.º 13, proprietário do Monte das Caldeiras no Caia.
Sabe em que n.º da rua de Alcamim habitava o sr. Alves?
Tinha este senhor, em Elvas, fama e proveito de bebedor e de gastador.
Que mais me pode informar de tal pessoa de quem descendo?

Atenciosamente

António Miguens

De Maria José a 15 de Maio de 2009 às 21:55
Curiosos são os caminhos do destino!
Tenho comigo uma pequena fotografia da Sra Dona Maria José Alves - que foi notária em Cuba - Baixo Alentejo - em que ela está acompanhada de sua Mãe - a sra. Dona Angélica e de uma afilhada que criaram , filha da Senhora Etelvina , sua cozinheira e amiga.
Posso dar-lhe se me fornecer o meio de o fazer.
Quis o acaso que tivesse vivido em Cuba na casa da frente daquela onde residiam e dona Maria José tinha o cartório.e onde convivemos como família.
Seus pais e ela criaram como filho um menino de rua a quem chamaram António , que casou foi residir em beja e para casa de quem foi dona Angélica viver quando dona Maria josé faleceu aí pelos anos 45/46.
A afilhada e suas irmãs que também foram protegidas da família Alves - penso - que ainda vivem em Cuba - onde há poucos anos estive com elas.
Eu casei em 47, e a não ser por visita e raramente lá voltei .
Posso apenas dizer-lhe que eram pessoas de caracter - generosas, correctas e muito educadas que dava gosto ter por amigas.
Também me recordo de ouvir citar uma família " "Canário rico" e outra "Miguéns" que teriam em Elvas uma livraria.
Um outro nome - Natália - também recordo, mas já não sei ligar as pontas.
Na altura deste convivio- em Cuba - o senhor Alves já havia falecido.
Com os meus cumprimenos - Maria José Rijo


De Anónimo a 2 de Junho de 2009 às 23:48
Curiosos mesmo, cara Dona Maria José.

Tudo se confirma.
O menino que criaram, o António, casou mais tarde com uma neta do Sr. . Alves, que foi mandada para Cuba, de nome Natália ou Vicência , não sei precisar qual das duas irmãs.
O "Canário rico" era o Sr. . José Lourenço Escarduça, que primeiro foi cunhado e depois genro do Sr. Alves.
A sua filha e neta do Sr. . Alves, minha avó Alzira, foi casada com o meu avô Miguens que tinha a Papelaria Lusa.
Por sua vez são pais de meu pai, Tito Escarduça Miguens, avô da sua amiga Sofia.
Encontraremos ocasião de mais sobre isto falar em Elvas.

Com os meus cumprimentos - António Miguens

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