Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Sardinha, a Quinta do Bispo – Porquê? – IV

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.492 – 19 – Fevereiro-1999

Conversas Soltas

 

 

Talvez seja a altura de relembrar aqui, alguns pareceres, que, na imprensa de Elvas, em épocas diferentes, foram aparecendo sobre o assunto em epígrafe.

Vou faze-lo por ordem no tempo, e, porque algumas das opiniões, provêm de gente ilustre, – infelizmente já falecida – espero que se entenda perfeitamente que eu não inventei esta preocupação.

Quer se encare de frente, quer se façam ouvidos de mercador, o problema existe.

Resolvê-lo é dever de Elvas, e essas decisões de problemas locais, - essas – e não outras – que, em série, se vão, mais ou menos, resolvendo por determinações exteriores, no nosso e em outros municípios, é que  dão a dimensão real do espírito de iniciativa e da visão de quem decide.

Em Sábado 2 de Maio de 1970 – dizia assim o “Linhas de Elvas” pela mão de Ernesto Ranita Alves e Almeida, então seu director.

Cito: “ À nossa mesa de trabalho acaba de chegar mais um livro, mais uma belíssima manifestação das qualidades investigadoras de Eurico Gama, sempre disposto a dar-nos a justa medida do que vale o seu nome no campo cada vez mais restrito dos que, sem qualquer turvo intuito de interesse próprio, se dedicam à constante e nobre tarefa de difundir apontamentos culturais, factos e  perfis de ilustres figuras elvenses ou com elas relacionadas por motivos de ordem espiritual. (o sublinhado é meu).

Referia-se assim Ernesto Alves, à obra: - “António Sardinha (páginas esquecidas e achegas para a sua biografia)” – que Eurico, na altura lhe enviara.

As referências são extensas, mas muito interessantes. Limito-me a destacar, por curiosidade, o que me parece ser menos conhecido.

 

“Vemos um António Sardinha integrado no meio elvense, cliente da Barbearia Samuel, felizmente ainda hoje em actividade; um António Sardinha presidente da Câmara Municipal; um António Sardinha polemista enfrentado na “Fronteira, a fogosidade talentosa de um arronchense ilustre – Teófilo Junior –, um António Sardinha colaborador da imprensa de Elvas, e muitos outros aspectos relevantes da sua biografia “local”.

Assim contava Ernesto Alves – repito – citando Eurico que em livro enaltecia a figura de António Sardinha.

Fecho este apontamento voltando a citar o meu saudoso amigo Ernesto, também ele, Elvense, com maiúscula e indómito defensor do bem de Elvas.

“Homens como Eurico Game têm qualquer coisa de missionários e devem ser apontados às novas gerações como paradigma e estímulo do que significa o trabalho olhando para o alto, defendendo abnegadamente a herança que os nossos maiores legaram ao património espiritual da Nação “

 

Que admira então, que, de vez em quando, este assunto que permanece latente na consciência dos elvenses interessados pelo seu património, ressurja, com a força de tudo quanto tendo fundas raízes no passado, e dando testemunho da história da nossa terra, nunca se afasta dos seus corações?

Em 6-7-1979 voltava a perguntar-se no Linhas de Elvas:

E por que não a Casa Museu António Sardinha? (e, seguia-se o texto)

Toda a cidade sabe o muito que se deve a essa figura impar das letras pátrias, que à sombra do Aqueduto escreveu a maior parte das suas importantes obras, hoje completamente esgotadas.

E, mais adiante: Pois agora ocorre-nos alvitrar à Câmara Municipal a aquisição da Quinta do Bispo, onde o Mestre do Integralismo Lusitano passou grande parte da sua vida, a fim de que seja transformada em Casa-Museu”.

No mesmo jornal, nº 1486 de 6-7-1979; também se podia ler:

“Já estava a primeira página composta, quando nos chegou às mãos a proposta que o vereador Joaquim Trindade apresentou na sessão de segunda-feira e que foi aprovada por unanimidade. Quem ler estas duas notícias há-de pensar que houve acordo prévio entre o jornalista e o edil. Podemos garantir que tal não sucedeu. O que houve foi mera coincidência, e julgamos de difícil repetição.

 

Passamos a transcrever a proposta, que diz o seguinte:

 

“É de todos sobejamente conhecido o que António Sardinha representa para Elvas, cidade onde viveu e onde produziu toda a sua valiosa obra literária.

Por duas vezes já a sua memória foi aqui devidamente comemorada, estando o seu nome gravado em placa no monumento mais significativo da cidade – os Arcos da Amoreira.

Em tempo oportuno foi o plátano anexo à sua residência na nossa cidade considerado de utilidade pública.

Perdida que foi, a favor de uma Universidade de Lisboa, a sua valiosa Biblioteca, inicialmente prevista para enriquecer a nossa Biblioteca Municipal, resta assegurar para o património cultural da Cidade a sua casa junto ao plátano já considerado de utilidade pública.

Assim sendo, proponho que a Câmara Municipal envide todos os esforços no sentido de que, ainda na vigência do nosso mandato, a casa onde viveu António Sardinha seja considerada pública.”

 

Chamo a atenção para a preocupação, aliás, justa e bem legítima, dos cidadãos de Elvas com a Quinta do Bispo, - propondo à sua Câmara que a comprasse e defendesse.

Comentar, para quê?

Apenas recordar que naquela época a Quinta ainda estava na família de António Sardinha, mesmo assim, em nome de valores perenes, erguiam-se vozes, embora, com o desconforto que se depreende, por tal situação...

De outra vez, se Deus quiser, citarei outras opiniões, também ventiladas neste jornal. Pelo menos vai-se rescrevendo a história e avivando recordações.

Quem sabe se acordando responsabilidades.

A esperança é a última coisa que morre...

 

Maria José Rijo

 

sinto-me:
publicado por Maria José Rijo às 21:55
| comentar
2 comentários:
De Xavier Martins a 6 de Junho de 2008 às 01:47
È com grande emoção que recebe sempre aqui
os seus textos - estes textos magnificos sobre
a Quinta do Bispo.
São textos bem elucidativos do que se passou
nessa cidade em anos anteriores - as maldades
que fizeram a uma Quinta que apenas guardava
história e se poderia preservar para a história -
não destrui-la - como fizeram - mas transforma-la
em algo que todos pudessemos preservar.
Esta ideia da Casa Museu de António Sardinha
seria uma ideia de génio - como fizeram noutros
lugares com outros escritores - António Sardinha
não é menos importante que eles.

Sabe o que eu diria Senhora D. Maria José Rijo
se me permite: - pérolas a porcos - por isso
fizeram o que fizeram, por pura ignorancia - nada
mais que isso.
São palavras duras - mas também foi a falta total
de sensibilidade dos elvenses que deixaram perder
um património destes...
E de lamentar sempre que coisas destas acontecem.
É tristeza que está no meu coração.

Parabéns D. Maria José por mais esta valiosa achega.
Bem haja

Xavier Martins
De Maria josé a 6 de Junho de 2008 às 20:32
Percebo perfeitamente, como calcula, a sua adesão a esta luta desesperada para salvar a Quinta do Bispo.
Pena que por aqui não tivesse acontecido o mesmo.
Enquanto lhes pareceu folclore... tudo bem! quando se aperceberam que era necessário alguns sacrifícios, como disse o meu Amigo Flor do Cardo, tiraram-me o tapete - como se alguma coisa grande na Vida não tivesse implícita a sua quota de sofrimento...
Elvas antiga,histórica, está muito arruinada,caiem prédios com frequência, em contra partida a troco de mais valias, onde eram hortas e olivais, pululam bairros, uns de construções falidas, outros concluidos,Muitos, sem beleza, e, na sua maioria do mais impante novo riquismo ...
Obrigada por me entender. Pedi à Paula para me fazer este blog( que de net pouco entendo) porque em memória de tantos maus bocados que por estas minhas convicções, vivi, penso que é justo que fique documentada a minha cruzada.
Um abraço grato e amigo
Maria josé rijo.

Comentar post

.Quem sou

.pesquisar

 

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.Agora diz-se

. Aniversário do Coral Públ...

. Um testemunho

. Conservação e Restauro do...

. As lembranças do Forte da...

. PROGRAMA-Cultura/Turismo ...

. PROGRAMA -Cultura/Turismo...

. PROGRAMA -Cultura/Turismo...

. PROGRAMA -Cultura/Turismo...

. PROGRAMA -Cultura/Turismo...

. PROGRAMA -Cultura/Turismo...

. PROGRAMA -Cultura/Turismo...

. PROGRAMA -Cultura/Turismo...

. PROGRAMA -Cultura/Turismo...

. PROGRAMA -Cultura/Turismo...

. PROGRAMA -Cultura/Turismo...

.Ficou Escrito...

. Junho 2017

. Maio 2016

. Março 2016

. Novembro 2015

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Julho 2010

. Junho 2010

. Abril 2009

. Março 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

.tags

. todas as tags

.favoritos

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.Por onde me levo

.Contador - Julho-2007

.Ficou Escrito:

Câmara de 1986 - 1989 @@@@@@@@@@@@@@
@@@@@@@@@@@@@@

.Excertos de artigos

Considero que é urgente e necessário provar aos nossos jovens que o dinheiro não compra consciências e é de nossa obrigação dar-lhes alternativas à droga e ao vício, mostrando-lhes que se pode lutar por ideais - dessinteressadamente - e que, só assim procedendo teremos moral para apontar caminhos e fazer exigências - do que dermos exemplo... - Maria José Rijo @@@@@@@@@@ Os elvenses de agora são dessa mesma grata e honrada gente - que a qualidade de assim o ser é deles a melhor herança. ... - Maria José Rijo
blogs SAPO