Domingo, 23 de Março de 2008

O FORTE DA GRAÇA-Do Nascimento á ruína (XV e último)

Nascido em nome de valores intemporais – Pátria e Liberdade – valores que se honram com a vida e também com a morte – agoniza lá do alto da serra de Nossa Senhora da Graça o nobre Forte de Lippe.

            Olhos argutos duma pátria – que para viver já não precisa de esmiuçar, vigilante, a vastidão dos horizontes que nos longes se confudem com as terras da temida Espanha, que de lá se avistam – a História os dispensou por inúteis.

            Assim, o tempo que a pouco e pouco aperta o cerco de morte á majestosa fortaleza – que pedra por pedra vai ruindo – como pedra a pedra foi erguida – vai passando …

            E os sonhos e os mitos que sempre povoam e adornam tudo quanto na vida perde o sentido de imediata utilidade e teimosamente resiste ao abandono conservando dignidade o porte, sobre ele se vão avolumando.

            E, um dia, há-de falar-se do Forte, como de uma lenda e dele se dirá: - era uma vez…

            E, hão-de lembrar-se os prisioneiros que o habitaram e desciam a encosta, a horas certas, até á fonte do Marechal, carregando ao ombro os barris, que no regresso, cheios de água, impunham com o seu peso, a dureza da sentença que mais aviltava o agravo da privação da liberdade.

            E, hão-de citar-se – dos reclusos – as quadras nascidas das suas almas queixosas de um destino sempre avaliado por cruel e injusto.

            Cancioneiro ingénuo de doloridas mágoas…

 

Maldito Forte da Graça

Presídio de desgraçados

Sepultura de homens vivos

Debaixo do chão enterrados

 

Adeus ó Forte da Graça

Peço para lá não ir

Tal é a minha desgraça

Choro eu p’ra outro rir.

 

Logo à porta do Forte

Esta um dragão encantado

Quem lá entra já não sai

Fica por lá encerrado.

 

Cheguei à secretaria

Fui presente ao capitão

Por ser o primeiro dia

Deu-me logo um “ramotã”

 

           

            Embalada a nossa sensibilidade pela toada das queixas tudo parece apontar só dor e ressentimento de lendários martírios.

            Mas, um dia, uma notícia de um luto num jornal provoca um inesperado contributo ao outro lado da história que então se investiga…

.

EXS, ENCORPORADO DD ANOS

35/37 DEVEDOR IMENSAS

GENTILEZA FALECIDO APRESENTA

SENTIDAS CONDOLENCIAS

EXMA FAMILIA

 

           

            E, surgem nomes, muitos nomes…

            E o espírito serena e pondera.

            E a memória evoca a vida activa e “familiar” dentro da fortaleza com os incorporados cada qual com suas recordações, suas habilidades, seus préstimos.

            E revêem-se rostos e mãos de quem ensinou jogos e contos das suas terras distantes, de quem fez brinquedos – de quem reencontrou jeitos de infância para confraternizar com as crianças, filhas dos militares da guarnição com quem faziam amizades.

            Recorda-se o artesanato, os móveis, as coisas que habilidosamente faziam para vender e ganhar os dinheiritos do tabaco, dos selos e das cartas onde se falava de amor e saudade.

            Lembra-se a sua prestação de esforço para a conservação dos prédios militares e outras obras de que a cidade ia carecendo.

            Dessa mão-de-obra nasceu também o campo de futebol – para onde vinham trabalhar, como sempre, sob escolta.

            E, porque é verdade que só os cadastrados tinham mais duro tratamento – o coração aquieta-se e aceita a evocação dos “tormentos do barril” como preço, pelo qual, os homens que em horas aziagas atentaram contra direitos de outros homens pagaram o seu tributo para reconquistar a liberdade.

            Sendo a história do Forte feita da soma de muitas e diferentes histórias – por outros valores – também em verso o povo o celebrou.

 

Se fores a Elvas

Vai lá acima ao Forte

Que é onde os franceses

Temeram a morte

 

            Porque é verdade que este e outros cultos lhe são – também – devidos…

            Da sua origem conserva o Forte o severo perfil de sentinela…

            Da sua existência as marcas indeléveis dos anos…

            Da sua sorte – falará o tempo contando no futuro – dele – e de nos…

Porque este jornal chegará aos seus leitores na semana de Natal, desejo que ele, a todos leve, os meus votos de Boas-Festas – e que, para si próprio – os aceite também – no abraço de grata amizade em que envolvo toda a equipa que o produz.

                       Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.279 – 23-Dez. — 1994

Conversas Soltas

 

 

sinto-me:
música: Forte da Graça - 15 e último
publicado por Maria José Rijo às 00:17
| comentar
4 comentários:
De Manuel Lencastre a 23 de Março de 2008 às 00:37
Gostei imenso de conhecer este seu blog.
É muito importante na medida que dá a conhecer
um monumento militar tão importante e imponente.
Os meus Parabéns por estes excelentes artigos.

Voltarei

Lencastre
De Xavier Martins a 24 de Março de 2008 às 18:43
Muito interessante.
Estes artigos são muito bons e capazes de ajudar
a quem se proponha estudar a fundo o forte da
Graça.

Sabe acho que estes artigos foram muito bem
pensados e está um trabalho impecável, elucidativo
e muito lucido.
Só tenho de lhe desejar os meus Parabéns.

Xavier Martins
De Antonio a 19 de Março de 2011 às 20:39
Ó maldito Forte da Graça
Escola de desgaçados
Sepulturas de homens vivos
Debaixo do chão isolados

Ó mãe que filhos criais
Para a vida militar
Á correção vão parar
Dando suspiros e ais
Choram os filhos pelos pais
Naquelas casas de desgraça
Tudo o que é mau se ali passa
Sem ninguem lhe poder valer
Por isso eu digo e torno a dizer
Ó maldito Forte da Graça

Quando toca a alvorada
Manda o chefe levantar
Manda camas alinhar
Ali quer-se boca calada
Ninguem ali diz mais nada
Se não somos castigados
E por todos desprezados
Sargentos e oficiais
Cada vez se grita mais
Escola de desgraçados

Logo á entrada do forte
Está um bicho gravado
Quem lá entra fica encantado
Sair de lá é uma sorte
Ali perde o seu bom porte
E o conselho dos amigos
Anda sempre metido em perigos
Por aquela prisão a jazer
Foi quando cheguei a ver
Sepulturas de homens vivos

Quando entrei na secretaria
Estava lá um capitão
Logo me deu um bofetão
Por ser hoje o primeiro dia
Mandou-me ir p'rá enxouvia
Sem tempos determinados
Somos homens ou malvados
Por um crime cometer
Sempre á espera de morrer
Debaixo do chão isolados
(Autor desconhecido)
Recolha popular .1952
De Anónimo a 7 de Dezembro de 2015 às 22:54
Versos de GIL QUINTAS - MONTOITO - 1952

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