Segunda-feira, 24 de Março de 2008

DAQUI A POUCO… SÓ MAIS UM POUCO…

“ Se este esboço de monografia conseguir o fim patriótico a que se destina – o de o vulgarizar a alta importância da nossa primeira obra de fortificação militar e o esforço titânico dos homens que a construíram – o autor dá-se plenamente por satisfeito”

Forte da Graça, 18 de Abril de 1929.

 

Excerto da introdução de Domingos Lavadinho ao seu livro “O Forte da Graça Esboço de uma Memória Histórica e Descritiva”.

 

Citando, Aires Varela, conta Domingos Lavadinho, no seu livro – “O Forte da Graça Esboço de Uma Memória Histórica e Descritiva” – que foi a bisavó de Vasco da Gama, Catarina Mendes, quando já viúva de Estêvão Vaz da Gama com quem contraíra matrimónio aí por 1.380 – quem promoveu a reedição duma ermida abandonada, que fora parte do Convento de S. Domingos da Serra, e, nela fez colocar uma imagem de Nossa Senhora da Graça.

Essa imagem, por milagrosa, deu seu nome ao monte, antes chamado de S. Domingos, à ermida e posteriormente por Santa Maria da Graça se designou também o forte em torno dela construído sob a traça do Conde de Lippe na segunda metade do séc. XVIII.

- Nestes tempos. Nestes nossos tempos em que com palavras empoladas tanto se fala na glória dos descobrimentos, enraizamentos históricos e mais floreados de retórica – bonitos de dizer – para dar ares e pose…

- Nestes tempos, apetece perguntar onde pára a consciência do que tão emproadamente se apregoa e a coerência entre a atitude e a palavra de compromisso que tão ligeiramente se esquece…

É que o divórcio entre ambas reduz tudo à cotação de pechisbeque e a eloquência a palavreado de banha da cobra enganosa e aviltante.

quando o estado resolve alienar património sem se dar ao cuidado – sequer – de auscultar a cidade que o comporta e a que ele dá carácter…

- Como se sente o País?...

- Como se sente a cidade lesada e agredida?

Os governos passam, mas os efeitos de decisões destas são irreparáveis e permanecem…

Espera-se dos governos que sirvam os povos.

Não é imaginável que os espoliem e envergonhem.

Enquadrando estes problemas entre outros da nossa vida actual, somos levados a reconhecer que decisões como esta, que desrespeitam a história e patenteiam falta de coragem para recuperar património, falta de criatividade, falta de sentido de responsabilidade na defesa de valores pátrios…

(Talvez esta expressão agora seja subversiva ou pejorativa…)

Eu uso-a como “in illo tempore” a aprendi repassada de emoção…

Mas, dizia eu, decisões como esta são a causa primeira de muitas outras coisas que se deploraram.

- Quando vêm de cima os exemplos de falta de devoção por valores herdados…

- Quando vem de cima a negação de idiais e princípios que estão no fundamento de ideias e sonhos…

- Que espaço se deixa aos novos, que caminhos se lhes abrem, que horizontes de vida se lhes oferecem?...

- Se nada há que valha a pena honrar, respeitar, salvar, conversar a solução “luminosa” proposta é arranjar dinheiro quanto mais fácil, melhor, seja lá à custa do que quer que seja…

- Como estranhar depois a frustração, o desencanto que levam à droga e à marginalidade as gerações para quem somos referência?!

Olhando e sofrendo a leviandade de tão presunçosas soluções…

Olhando e sofrendo com o estado deplorável a que chegou um monumento ímpar que, há meia dúzia de anos – frente à impotência da cidade – deixaram os “auto-proclamados donos” degredar…

Olhando e sofrendo a dor de uma cidade submissa frente à arrogância de posse expressa pelas placas (Património do Estado) que tornam intocáveis imóveis, preciosos, que se foram arruinando e que teriam – sem grandes gastos – se aproveitados a tempo, resolvido problemas de falta de espaço que sufocaram rasgos de progresso que, assim, a Elvas foram negados…

- Olhando e sofrendo a afronta de à cidade não terem sido restituídos esses bens que sendo do estado – são património do povo e, neste caso, dos elvenses e que terminada a sua serventia militar deveriam de imediato abrigar outros serviços de interesse público…

… Sabendo todos e qualquer um de nós que edifício abandonado é edifício condenado à morte … É lícito concluir (excluído, claro, a hipótese de irresponsabilidade de quem decide) que esta não é uma situação de acaso mas, sim, o resultado lógico de um maquiavélico projecto…

Mandar, decidir… é antes de mais assumir a obrigação de prever, planear…

- Pensando em tudo isto e no desembaraço estranhamente singular, como tudo se despreza, e pisa e atropela de forma tão simplista – julgo ver o nosso país como quem vê o Paco da anedota dos pistoleiros:

- “Como te chamas?

- Paco,

- Te llamavas!”

Depois, terminada a proeza o “herói” afasta-se, impune, assoprar os canos da arma que volteia no dedo metido ainda no gatilho e encaixa de novo no coldre.

- Pois é!

- Com tiros tão certeiros, daqui a pouco…

- Só mais um pouco…

- Portugal – era!

 .........................

NOTA:

Ainda hoje não percebo porque o retrato de “Vítor Manuel” que fora oferecido a “Lanceiros I” foi parar a Estremoz!

Porque não herdou o Museu de Elvas um documento iconográfico tão valioso que era legitimamente seu?!!

Extinguiram… extinguiram… até ao pormenor dos documentos históricos…

Já há anos, falei nisto, neste jornal.

 

                                         Maria José Rijo

 

 

@@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.254 – 24 de Junho de 1994

Conversas Soltas

 

sinto-me:
música: Forte da Graça
publicado por Maria José Rijo às 15:48
| comentar
6 comentários:
De Xavier Martins a 24 de Março de 2008 às 18:48
Outro bom artigo!
Já está fora daquele conjunto dos 15 artigos,
mas está igualmente bom.

Gosto imenso desta sua forma de escrever e tenho
um prazer imenso ao ler os seus artigos.
Por favor minha Senhora continue aqui a postar
desta forma especial - a sua - de escrever.

Os meus Parabéns
Já sou um seu admirador

Xavier Martins
De Flor do Cardo a 24 de Março de 2008 às 18:52
Sempre achei estes seus artigos - sobre o Forte
da Graça - MUITO BONS.
Gosto imenso desta forma que usou e usa para
defender as causas - como esta (e outras que
recordo) - espero ve-las aqui todas elas para que
o mundo possa ler e entender Maria José Rijo cuja
lucidês faz parte de si e destes artigos.

Também gosto muito deste blog.

Com amizade

Flor do Cardo
De Samuel Mendonça a 24 de Março de 2008 às 21:11
Acabei de encontrar este seu blog.
Fiquei encantado porque eu conheço Elvas, não
porque lá tivesse vivido, mas porque o meu irmão
vivia em Estremoz e costumavamos muito passear
na cidade de Elvas.
Sempre gostamos de visitar tudo, entrar por tudo
o que é possivel visistar e tive a oportunidade de
entrar no forte.
Uma obra genial, imensa mas então, como agora
está votada ao abandono, o que é uma pena.
Parece que quem pode socorre-lo não quer ou não
pode, tenho pena que um dia caia ao chão.

Este seu blog é um Tesouro - não só pela escrita,
pelo português brilhante mas porque nos mostra,
além de belas imagens, nos conta pequenas
preciosidades sobre a própria história do forte.

Fiquei muito Contente.
Os meus Parabéns

Samuel Mendonça
De Maria José a 29 de Março de 2008 às 20:19
Muito, muito, obrigada a Samuel Mendonça pelas palavras de apreço com que brindou o meu trabalho.
Estas "lutas" custaram-me alguns incómodos, mas estou convencida que vale sempre a pena fazer o que nos pede o coração, e Elvas é tão diferente de todas as outras cidades portuguesas que merece.
Obrigada mais uma vez
Maria José Rijo
De Anónimo a 6 de Abril de 2008 às 22:58
"Passear" neste blog traz-me boas recordações dessa cidade linda...
De JOAQUIM FREITAS a 29 de Dezembro de 2008 às 00:06
GOSTEI IMENSO EM TER DESCOBERTO ESTE ASSUNTO SOBRE O FORTE DA GRAÇA FUI MILITAR AI DE AGOSTO 1986 AGOSTO DE 1987 NUNCA MAIS AI VOLTEI MAS PELAS PALAVRAS DEVE ESTAR UMA CALAMIDADE, BEM HAJA PESSOAS QUE DIVULGUEM ESTAS SITUAÇÕES.

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