Terça-feira, 25 de Março de 2008

AINDA O FORTE DA GRAÇA

Realmente o meu propósito hoje, nesta conversa solta, é ainda falar sobre o Forte da Graça.

Acontece que me recordei de ter tido conhecimento (quando se aventou a hipótese da sua desactivação, julgo que aí por 89, 90?) de uma sugestão para aproveitamento do Forte, adaptando-se a Museu – feita pelo Coronel Nuno Valdez dos Santos.

Mais! Pelo General Themudo Barata foi, ao tempo, nomeada uma Comissão encarregada de estudar o assunto.

Dela faziam parte o Brigadeiro Lemos dos Santos, do Museu Militar, o Coronel Santos Reis, Dir. Serv. Histórico e um Oficial do Serv. Histórico e um Oficial do Serviço de Fortificações e Obras Militares. A comissão apresentou um relatório favorável à criação no Forte da Graça do “Museu da Arquitectura Militar”.

Do despacho final nada sei. Aceito poder haver algum lapso ou troca nos nomes que cito, dada a distância no tempo e as circunstâncias da minha vida particular que me afastaram destas e de outras preocupações com a vida da Cidade.

Agora porém, estes acontecimentos recentes impuseram-se-me de tal modo que o que parecia definitivamente esquecido se tornou presente.

Assim, calha-me, hoje, tornar públicos estes factos de que quase não me lembrava e que provocam como no meio militar houve – graças a Deus – quem tivesse sido sensível ao duvidoso destino que poderia ameaçar a Fortaleza e tivesse tido o cuidado e o sentido de Estado de prever para ela aproveitamento compatível com a sua grandeza e valor histórico.

Honra lhes seja!

Nesta altura em que se quer desdizer o que indesmentivelmente está escrito no Diário da República – apetece também reafirmar, e nunca se repetirá à saciedade – que o povo não é tolo nem facilmente manipulavel – pois que, por ancestralidade, tem a intuição aguda da importância das coisas que sabe, aprendidas a fundo na universidade da vida.

Também parece oportuno falar como “achega para valorizar a peça de leilão” que o culto dos antigos deuses da Lusitânia foi muito praticada por estas terras de Elvas.

                        

CITO ANTÓNIA SARDINHA:

 

“ Ó Endovélico, ó menino antigo,

  que esta paisagem adorou temente,

  os horizontes ainda estão contigo,

  alembram-se de ti saudosamente.

 

  Pedem ao Céu perdão p’ra teu castigo,

  Ó pensativo, ó meigo adolescente.

  Acharam em Jesus um doce abrigo,

  Querem que tu o aches igualmente. “

 

Para acréscimo vamos a “Religiões da Lusitânia” de J. Leite de Vasconcelos onde depois de tomarmos consciência da importância do culto ao Deus Endovélico sabermos também onde havia santuários para o culto da deusa Atégina…

Ora… diz a lenda? Que o santuário de Atégina era precisamente onde para enterrar essas marcas pagãs logo após a conquista de Elvas por D. Sancho se estabeleceram os pregadores que fundaram o tal convento de S. Domingos…

Que o convento lá existiu – conta Ayres Varela.

Que a bisavó de Vasco da Gama sobre as suas ruínas mandou construir a capela em louvor de Nossa Senhora da Graça também é verdade histórica…

Do resto – quem se interessar que investigue…

De qualquer modo, assim como os fantasmas valorizam os castelos ingleses – pode ser que ajude a um bom preço esta auréola de deuses e mitos que coroa a nobre fortaleza situada como se diz no “Santuário Mariano”:

                          

“ Meya legoa fora da cidade de Elvas, se vê o Santuário e casa de Nossa Senhora da Graça situada em huma fragosa montanha, formada de penediais, de antigamente intratável por espessura de matoa; mas hoje aberta e cultivada. He esta casa da Senhora muyto antiga, e alguns querem que tivesse princípio, pouco depois que a Cidade de Elvas foy tomada aos Mouros, que foy pelos annos 1.200, a segunda vez que a tomou D. Sancho II outros querem, que esta casa a edificasse Catharina Mendes, Senhora Illustre, que casou em Elvas com Estação Vaz da Gama, do qual ficou viúva sendo de dezoito annos. Viveo sempre em Elvas, e muytos annos, com grande exemplo  de virtude , e honestidade. Com a sua muyta virtude, e grande devoção que teve a Nossa Senhora, lhe edificou a Ermida de Nossa Senhora da Graça, de que agora tratamos; e se ella já havia sido erecta, a reedificou, e fez novamente, e tomou della o Padroado.”

 

Foi este o Santuário que o Forte envolveu e abraçou…

É este “mundo” que vai à praça!!!

 

                           Maria José Rijo

@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.261 – 12- Agosto – 1994

Conversas Soltas

sinto-me:
música: Forte da Graça
publicado por Maria José Rijo às 23:16
| comentar
1 comentário:
De Xavier Martins a 26 de Março de 2008 às 02:01
Estou fascinado
tanto pelos seus textos do forte da Graça,
como pela forma como escreve ou ainda pelos
assuntos aqui tratados.

Minha Senhora estou deveras encantado com
tantissima beleza nesta sua forma de escrever.
As fotografias que colocou em cada um dos textos
foram muito bem escolhidas e eu admirei
profundamente a sua obra tão vasta e cheia de
encanto e beleza.

Os meus PArabéns D. Maria José.
Estou rendido perante os seus blogs.

Seu admirador de Coimbra
ex-militar

Xavier Martins

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