Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

DAMA DEFENDE BISPO

A defesa do não loteamento da Quinta do Bispo que a autarquia agora pretende executar, teve desde logo um rosto: Maria José Rijo. A ex-vereadora do município é uma profunda conhecedora de toda a história da quinta, e a sua sensibilidade às questões histórico-culturais levou-a desde o principio, por intermédio deste semanário, a incetar essa cruzada pela defesa da identidade desse local tão representativo para a cultura elvense.  

Maria José Rijo considera que qualquer coisa que se venha a fazer é “uma resposta que estamos a dar à história “e que” não seria bom em nome de interesse particulares agredir um património cultural comum.”

Já esta semana esta dama da cultura local veio de novo em defesa do bispo que tanto admira. Fê-lo em jeito de carta aberta ao presidente que aqui publicamos.

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..

Exmo. Senhor Presidente

 

Os meus cumprimentos.

E, desde logo, com eles afirmo que, pessoalmente, nada me move contra V. Excelência – que até considero.

Quero apenas, porque V.Exª me confessou que “Cultura” não é o seu ramo e não é sensível a esses valores, contar-lhe o que é a Quinta do Bispo em termos de Património Cultural e Histórico de Elvas:

 

“ A Quinta do Bispo era a de São Sebastião e depois de Aires Varela, a quem foi comprada pelo 6º Bispo de Elvas, D. Manuel da Cunha, donde lhe vem o nome.

Em 1800 havia na quinta um palacete e também uma ermida, de Santo Mártir, onde se veneravam também as imagens da Senhora do Bom Sucesso e de São Caetano. A 20 de Janeiro era a festa do seu orago, feita pela Câmara. (Ermidas e palacete foram no princípio do séc XX para que não servissem de alojamento aos Franceses.)

 António Sardinha escreveu ali grande parte da sua obra.

 

“… eu vivo numa quinta de gloriosas tradições episcopais com suas altas e copadas árvores, com  seu doce e  regalado sossego. Por aqui andaram doidejando, ladinas,  as musas de António Dinis da  Cruz e Silva. E talvez que no mesmo assento tosco em que  esta tarde me reposei deleitadamente, ouvindo a queixa saudosista das regas, se sentasse também algum dia, chorando a dor do seu orgulho ferido, aquele D. Lourenço de Alencastre – o prelado famoso da guerra do Hissope. (Cruz e Silva chamava à quinta, humoristicamente, o Versailles de Sua Excelência, o bispo.)

In – Monografia de Elvas por Maria do Céu Dentinho

 

Por estas e outras mais razões, ela está no “P.G.U.” – como zona verde – zona protegida.

V. Exª sabe-o. Sabe-o tão claramente que foi buscar a Évora o Sr. Arquitecto Barral para desmanchar o que estava feito – aliás, muito bem feito – com olhos de futuro para a Cidade, gizado com respeito pelas nossas tradições.

Se, V.Exª vai tirar a Quinta de “P.G.U.” para localizar lá o terminal rodoviário – se é só por isso – não vale a pena o trabalho e os gastos – nada o justifica!

V. Exª tem, que lhe ficou da Câmara anterior – um local já aprovado pela Direcção Geral de Transportes Terrestres – no Rossio do Meio, Fonte Nova – para esse tão falado quanto indispensável Terminal Rodoviário.

Dispõe também, para tal, de projecto quase concluído e negociações em curso com o Lar Júlio Alcântara Botelho.

Porque despreza tanto caminho já andado? Adia soluções e vai gastar mais dinheiro a refazer o que está feito? (V. Exª queixa-se tanto de falta de meios!)

Acha assim tão premente a necessidade de enterrar história com cimento e poluição degradando o trânsito – já difícil – (com cruzamentos perigosos) criando uma zona potencial de acidentes com nós rodoviários tão perto da Escola Secundária?

Se a Quinta está à venda, porque não a adquire a Câmara , com dinheiros comunitários para nela instalar condignamente o “Museu Agrícola”?

Há fundos especiais para esses efeitos. Sabe-o V.Eª e o seu Arquitecto bem melhor do que eu. Se a “bomba” cozinhada no segredo dos deuses tivesse sido essa – que felicidade para Elvas.

O abandono que a Quinta foi votada pelos seus actuais proprietários – que a adquiriram sabendo de antemão que era zona protegida, não loteável até dava para que a Exmª Câmara a expropriasse para utilidade pública – aproveitando assim o trabalho de desanexação encomendado por V. Exª ao Senhor Arquitecto Barral e já feito.

Fica a sugestão – de tão justificável atitude – para proveito da cidade – como seria evidente.

V. Exª justificou-se publicamente por ter adquirido bens em Elvas. V.Exª é de cá. Pensa cá radicar-se caso contrário, não o faria.

Nem essa circunstância lhe merece um olhar mais profundo, mais pensado, a um progresso enquadrado que respeite a alma das gentes, as suas raízes culturais e o património secular herdado?

Olhe que a cultura é quase um sortilégio, uma atmosfera que se respira – creia!

Que ninguém vive sem respirar, sabe V.Exª, até eu sei, e sabe toda a gente.

V. Exª deixou que fossem desmantelados os trabalhos de recuperação da nossa Biblioteca (a 2ª ou 3ª do País em qualidade e volume de obras); a organização do museu – que havia sido delineada por museólogos!...

Será que V.Eª quer ficar para a história da Cultura de Elvas, com uma imagem mais devastadora do que deixaram as Invasões Francesas?

Não posso crer!

A maior queixa que tenho, neste nosso muito amado País, é a maneira como são eleitos os Presidentes de Câmaras.

Não fora a “Clubite partidária” e, a cadeira, que V.Exª ocupa – não seria sua.

V.Exª esteve fora de “Esta Elvas” – como dizia António Sardinha – tempo excessivo.

O lugar de Presidente de qualquer Câmara deveria ser, sempre, e só, ocupado por quem, alheio a cores politicas, fosse capaz de sacrificar paz, sossego, comodidade – tudo – pela sua terra.

Por quem renegasse a glória fácil e se guiasse pela lição do Aqueduto da Amoreira; trabalhando: - para os netos, dos netos, dos nossos netos.

Por quem se rendesse aos valores perenes da Humanidade – os valores culturais – e, não se “passasse dos carretos” – permita-me que cite V.Exª – por tricas e bagatelas.

Renovo-lhe os meus cumprimentos.

Senti, como simples munícipe, que sou, dever compartilhar com V.Exª a experiência dos meus quase 70 anos.

O tempo que vivi – é o meu património.

Deixo-lhe, também, as palavras do poeta Leopold Sédar Senghor – que foi presidente do seu país – O Senegal – e é um notável da cultura dos nossos dias.

 

“ A terra não é nossa. Foram os nossos filhos que no-la emprestaram”

 

Foi com elas que a elvense ilustre Drª Maria do Céu Dentinho rematou a “Monografia de Elvas” de sua autoria.

Lá as fui respigar para as oferecer à nossa terra – à nossa gente – com o respeito e gratidão que Elvas me merece.

 

                             Maria José Rijo

 

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.270 – 21 de Outubro de 1994

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@@@@@

Resposta da Câmara a esta carta

Pode consultar no Jornal Linhas de Elvas

28- Outubro de 1994

 

sinto-me:
música: Quinta do Bispo - 7
publicado por Maria José Rijo às 21:42
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