Terça-feira, 8 de Abril de 2008

Cartas ao DIRECTOR - 3ª carta

Carta Aberta a Maria José Rijo

 

Longe de mim estava a eventualidade de tão depressa voltar aos jornais, não fora o impulso  de que me senti possuído de consigo me solidarizar, ao ler o reparo entristecido que a Maria José  fez no ultimo “Linhas de Elvas” , a propósito da forma como a figura de António  Sardinha é tratada pela nossa Câmara Municipal.

Quando Li a infeliz nota assinada pelo respectivo presidente, em que se chama literato ao autor de “O Valor da Raça”, de “Chuva de Tarde”, da “Epopeia da Planície”, da “Feira dos Mitos” e de muitas outras obras de inestimável valia, a ombrearem com o que de melhor por aqui se escreveu neste século, aflorou aos meus lábios um significativo e triste sorriso, que mais traduzia a confirmação que já tinha de que ali para as bandas da Isabel Maria Picão as coisas do espírito não interessam, dando-se primado  de exclusividade a outros valores.

Quando a Câmara que presentemente Elvas tem, foi empossada, intentei dar-lhe a minha desinteressada colaboração neste sector, mostrando ao presidente em visitas de pormenor, o estado das muralhas, dos fortes, dos fortins e da zona envolvente do castelo, procurando sensibilizá-lo para acções que restituíssem àqueles locais a dignidade perdida.

Os baluartes dos Morteiros, de Santa Barbara e do Príncipe, também por lá se passou , havendo então aparente receptividade no sentido da vitalização de tais espaços, ao mesmo tempo que uma Comissão Municipal de Arte e Arqueologia era constituída e bem assim uma outra para  a criação do Museu Rural de Elvas.

Já vão decorridos largos meses e estas comissões não mais foram chamadas para o que quer que fosse, assim em jeito de que o executivo se está “nas tintas”, se me é permitida a expressão, para tudo o que ao espírito diga respeito.

Mas há mais: recentemente, falando eu com um ilustre elvense que já foi presidente da Câmara Municipal, sobre essa figura régia de importância vital para a promoção de Elvas que foi D. Manuel I, acercou-se de nós a actual vereadora da Cultura. Demos-lhe conta do que estávamos a falar: da Sé, do traçado da Praça da República, do Aqueduto, da Ponte da Ajuda, do foral de elevação a cidade, tudo da iniciativa do Rei Venturoso, cuja memória aqui se deveria perpetuar.

A Srª. Vereadora ouviu e afastou-se sem dizer uma palavra.

Os leitores que tirem as suas conclusões.

É neste ambiente e com estes horizontes que vem à colação o nome de António Sardinha, a propósito do pretendido loteamento da Quinta do Bispo, encarado numa perspectiva economicista e despida da carga cultural que envolve, que vai de António Dinis da Cruz e Silva até ao escritor nascido em Monforte.

Trata a Câmara Municipal de Elvas o egrégio pensador por literato, como lhe poderiam chamar escriba.

Já em vida e por estas bandas, depreciativamente, o apelidaram de poeta.

A este vulto impar do pensamento lusíada e à sua memória será indiferente que quem tão baixo voa o não conheça ou não entenda.

A sua obra perdura, polifacetada, abrangendo tanto a história como a poesia, o ensaio, a ficção ou a doutrinação político-social.

A Maria José Rijo, porventura que o melhor ornamento da actual cultura elvense, saberá entender melhor que ninguém o alcance dos reparos que aqui ficam.

 .

António Tello Barradas

28 - X - 1994

Jornal Linhas de Elvas

 

sinto-me:
música: Terceira carta - António Tello Barradas
publicado por Maria José Rijo às 20:17
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