Domingo, 27 de Julho de 2008

Mulher de armas salva a Biblioteca de Elvas

Se não fosse a acção decisiva de uma verdadeira mulher de armas, actualmente vereadora do pelouro da Cultura da Câmara Municipal

 

de Elvas, a Biblioteca local continuaria entregue aos bichos.

Durante vários anos todo o espólio daquela casa de cultura, composta

por 80 mil volumes, 20 mil manuscritos valiosos, além de 2 mil obras

musicais dos séculos XVIII e XIX, correram o risco de se

 transformarem em serradura.

Felizmente que fim tão trágico como prosaico não tiveram obras únicas como o cancioneiro “Públia Hortênsia” manuscrito

do século XVI, ou a

“Nobreza de Portugal”, trabalho raro de Duarte Lobo

remontando ao

Século XVIII, mas o mesmo não se pode dizer de dezenas e

Dezenas de volumes e manuscritos, como a “Histoire Generále 

dês Voyages”, com os quais a praga de formiga branca se banqueteou alarvemente.

Tratou-se de um crime contra a cultura, principalmente

devido ao factoda Biblioteca Municipal de Elvas,

em face do valor do seu espólio,

Continuar sendo a terceira do País, o que toma a intervenção de

Maria José Rijo, assim se chama a decidida vereadora, ainda digna

dos maiores louvores

Teve de ser Maria José Rijo, com o total apoio do actual presidente da Edelidade, a meter mãos à obra e salvar um património cuja importância talvez os anteriores responsáveis autárquicos, por certo mais sensibilizados pela política do que pela cultura, nem sequer descortinavam.

 

Fomos a Elvas investigar como um desastre nacional esteve à beira de suceder e, a nosso pedido, a vereadora Maria José Rijo não só nos mostrou as provas evidentes de tal desastre como nos contou peripécias rocambolescas que, felizmente, terminaram com o salvamento da Biblioteca Municipal de Elvas a 10 de Junho de 1880, em festiva cerimónia, com as ruas engalanadas e tapetes de flores, mas cujo funeral esteve até marcado para pouco depois do seu centenário…

 

A Biblioteca estava num estado lastimoso

O actual presidente, antes da campanha, pediu a Maria José Rijo para, caso viesse a ser eleito, aceitar o pelouro da Cultura por existirem graves problemas nesse campo que o preocupavam muito, assim como a uma série de pessoas responsáveis da cidade de Elvas.

-- Aconteceu que ele foi eleito, eu vim com ele e coube-me o pelouro da Cultura. Cheguei aqui, à Biblioteca e deparei com uma situação ainda muito pior do que nós podíamos, porventura, ter suposto – garantiu a nossa entrevistada.

 

Segundo Maria José Rijo, a Biblioteca Municipal de Elvas estava sem desinfestação havia já dez anos e, por mais incrível que pareça, o chão de madeira em lugar de ser encerado era lavadas duas ou três vezes por semana. Contra as mais elementares regras, mantendo um clima de humidade propício à propagação de fungos e outras pragas que atacavam os livros.

 

Recheadas de preciosidades provenientes de antigas bibliotecas conventuais, entre as quais se contam as dos mosteiros de Portalegre, o seu interior era um verdadeiro património,

conforme a vereadora lembra:

-- Podemos garantir que os livros encontravam-se aos montes, pelo chão. Talvez mais de 8 mil exemplares nem sequer possuíam registo, não se podendo chamar biblioteca a um desarrumado armazém.

O problema era grave e a solução exigia verba vultuosa, tornando-a quase inviável pois a Câmara herdara imensas dividas e problemas ainda por resolver, problemas prementes e prioritários, como a falta de habitação e saneamento básico no concelho.

Por isso Maria José Rijo recorda:

-- não era fácil a uma câmara, altamente endividada, colocar a defesa deste património em primeiro lugar, pois ficaria em confronto com a realidade dos problemas das populações, as quais têm dificuldades prementes, mas também era urgente salvar a biblioteca, já que todos nós tínhamos consciência dos valores culturais que aqui estavam em perigo.

 

Tentaram salvar o que foi possível

A nossa interlocutora  manifestou-se convencida de que a Biblioteca Municipal de Elvas, mesmo apesar dos últimos anos de atribuição, possui mais interesse do que a Biblioteca do Porto ou a de Coimbra, garante pelas riquezas insuspeitas, vindas à luz do dia com o trabalho de organização que nela se leva a efeito, apresentando um largo campo para a actividade dos investigadores.

Na verdade, para além de manuscritos valiosíssimos em número desusado, foi recebendo ofertas de particulares cada vez mais consideráveis e em 1892 o seu inventário já registava 6.942 volumes.

Entre as doações mais importantes destacamos:

-- A do folclorista elvense António Tomás Pires, com 970 volumes.

-- A do Dr. João Henriques Tierno, com 3.013 volumes

E a mais valiosa, composta por 12.602 volumes, feita pelo erudito bibliófilo António Torres de Carvalho, esta em 1934.

Não é, pois, sem razão que a vereadora da cultura realçou:

-- Por uma questão de dignidade e amor próprio, pois os elvenses merecem muito mais do que o estado da sua biblioteca e demonstrava, o senhor presidente e eu fomos de opinião que a Câmara se devia empenhar em fazer tudo quanto fosse possível para mostrar o seu respeito por este património, até porque se trata de um património não só de Elvas mas nacional, não sendo erro considerá-lo património universal.

Assim, tentaram iniciar, com grande esforço, uma obra em várias fases durante a qual, primeiro, salvaram o que se podia salvar e, em segundo lugar, passaram à fase da arrumação.

O que nos foi dado ver, em resultado da primeira fase, a de salvamento, é simultaneamente revoltante e consolador. Revoltante porque são muitas dezenas de livros raros e centenas de manuscritos semidevorados pela formiga branca mas consolador porque foram restaurados dentro das possibilidades e são, agora, um símbolo do que não deve acontecer outra vez.

..

 

O soalho cedeu e descobriu-se a praga

 

Procedeu-se, então, a desinfestações periódicas para controlar a praga,

mas Maria José Rijo  confessa ter tido, sempre, a consciência de faltar um trabalho de fundo, só que não era fácil fazê-lo dentro da desorganização

em que a biblioteca ainda se encontrava.

--Como mão-de-obra, fomos ajudados por raparigas estudantes, da Ocupação dos Tempos Livres. Dezasseis jovens permanentemente, e com

elas prosseguimos um trabalho de rigor.

 

Certo dia, a vereadora detectou algumas tábuas do

soalho que cediam e,

Mandando investigar, descobriu o grande foco de

formiga branca. Se não

Atacassem o mal por esta raiz todo o trabalho de

arrumação, catalogação

e pequenas desinfestações iria passar à categoria de inutilidade.

Só que uma desinfestação ao nível agora requerido custava algumas

centenas de contos, importância volumosa para uma Edilidade em situação

financeira difícil.

-- Telefonámos, então, para Lisboa, para

o Instituto Português do

Património Cultural, mas já o fizemos numa

posição diferente porque

Tínhamos demonstrado o nosso interesse e o nosso

respeito por um

Património que recebêramos absolutamente devastado –

prosseguiu a nossa entrevistada no seu relato.

Deslocaram-se a Elvas técnicos que se aperceberam

da gravidade do

Problema e da dignidade da atitude, tornando-se

sensíveis à situação,

Podendo dizer-se que se inventaram os 500 contos necessários

à Desinfestação salvadora.

 

Panos quentes ou solução drástica

 

No entanto, o relatório dos especialistas acabou por ser dramático,

após análise da situação no próprio local.

Ao emitir parecer foram peremptórios: ou se fazia uma pequena

Desinfestação e, durante 5 ou 6 anos, não teriam problemas salvando-se

a chamada honra do convento, ou havia que ir arranjar

coragem para

retirar cerca de 100 mil volumes do lugar, arrancar tudo

e salvar não o

“convento” mas a própria biblioteca por algumas dezenas de anos

No dia em que recebeu semelhante parecer, Maria José Rijo

foi para casa

e não conseguiu dormir mas, como a noite é boa conselheira, no dia

seguinte, conforme contou:

-- Avistei-me com o presidente, apresentei-lhe a situação muito

claramente e a sua resposta foi: “Vá para a frente”.

Assim sendo, cheguei aqui e assumi essa obra, com todo o apoio

da Câmara. Tirámos dezenas de milhares de livros,

tirámos as estantes

das paredes, arrancámos o soalho, desinfestou-se

tudo e substituímos o

soalho, que era de madeira, por tijoleira.

No final, os livros voltaram aos seus sítios quase sem erro.

A biblioteca encontrava-se, pelo menos, controlada e

a partir de agora

a atitude pode e deve ser outra: torná-la actuante,

fazê-la entrar na

vida da cidade.

 

E nos olhos calmos mas determinados da actual

vereadora da Cultura

perpassa um certo brilho de paz pelo dever cumprido,

por se ter evitado

que a terceira biblioteca do País fosse por água abaixo,

digerida por bichos incultos mas devoradores.

 

Fazer a biblioteca entrar na cidade 

Fazer entrar a Biblioteca Municipal de Elvas na vida da cidade,

de uma cidade que, embora da província, conserva grandes

tradições culturais, é o próximo objectivo.

Para isso Maria José Rijo, coadjuvada pelo Dr. Alberto de Oliveira Marinho, actual bibliotecário e arquivista, já tem um plano que começou a levar a cabo o ano passado, consistindo no atrair à biblioteca a população

local, a pretexto de palestras sobre os clássicos universais, já que se realizaram em Elvas as celebrações do Dia Mundial da Música.

--No ano passado de 1988 vamos continuar com a segunda fase desse programa, nas desta feita só com músicos portugueses. Também pensamos iniciar um outro programa com o tema “um livro de cada vez”, nos mesmos moldes

Adianta, realçando que existe na cidade uma equipa de professores interessada em tratar da iniciativa.

As crianças e a sua necessidade de cultura são temas que não

foram descurados por Maria José Rijo, tendo-se criado, para elas, um espaço onde

terão lápis e papéis à sua disposição e onde, após ouvirem um conto infantil, poderão desenhar sobre o tema da história que escutaram.

Não vão faltar, também nesse espaço as crianças, espectáculos de marionetas e uma escola de pintura, para alegria de quem a frequentar e

desespero da formiga branca, totalmente derrotada.

Ao fim e ao cabo, fazer com que a Biblioteca Municipal de Elvas funcione não como uma casa onde se vai a medo, nos bicos dos pés, mas entrando na vida do dia da cidade como o prolongamento da casa de cada um.

-- Como ninguém pode ter em sua casa, esta riqueza de livros, todas as pessoas podem vir aqui usufruir deste tesouro. Ler os jornais, consultar o “Diário da República”, estudar, investigar, conversar sobre livros e provocar até o convívio tendo como

base a leitura.

Convida a vereadora.

 

Sem tomar obrigatório o cartão de leitor, a politica de cultura da renascida biblioteca é a de facilitar o contacto com o livro e mesmo as raridades bibliográficas podem ser consultadas.

Quanto aos investigadores, têm eles ali um paraíso ainda por descobrir e para isso os alertamos, principalmente para a grande quantidade de manuscritos existentes, os quais poderão ser analisados desde que na presença de um funcionário, como é normal em qualquer biblioteca do Mundo.

É caso para dizer que a formiga branca perdeu mais um combate.

 

Texto de à Victor Mendanha

Fotos deà Madeira Marques

3 de Janeiro de 1988

Jornal Correio da Manhã

 

sinto-me: 3 de Janeiro de 1988
música: Camara - 1986-1989
publicado por Maria José Rijo às 12:18
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