Sexta-feira, 21 de Março de 2008

O Forte da Graça- Do Nascimento à ruína – XIII

No “Guia de Portugal” editado em 1927 – Raúll Proença – abria a sua referência à cidade de Elvas com alguns dados – hoje curiosas efemérides que tem interesse referir:

            * ELVAS (1)

 

            Hotéis (medíocres).

            Central (R. do Tenente Valadim, 1);

            Ribeiro (R. dos Sapateiros, 21).

            Automóveis José Leonardo.

            Trem de aluguer. Elvino Lopes (Largo do Colégio) J. Maria da Silva

            Cafés e Restaurantes.

           Internacional – (R. da Cadeia);

            Eduardo Santos – (R. da Cadeia).

            Correio e Telegrafo: L. de S. Martinho.

            Teatros – Elvense

            Praça de Touros

            Clubes – Elvense

            Sociedades desportivas – Glória futebol Clube – Sport Clube

            Pessoa mais conhecedora da terra – António Torres de Carvalho (director da Biblioteca e Museu)

            Bilh. post. ilus. Havaneza ( R. da Carreira nº 33).

            Ilum. públ. Electricidade

            Águas. Calcárias

            Desc. sem. Domingos (barbearias às 3ças feiras)

            Dia feriado – 14 de Janeiro

            Feiras – 3º domingo de Maio (exposição de gados); - 20 a 23 de Setembro (feira de S. Mateus e romaria do Senhor Jesus da Piedade, com a afamada procissão dos Pendões)

            Especialidades locais: Ameixas doces, azeitonas, carnes ensacadas.

            Fábricas de conservas de: - frutas, tomate, pimentão, etc;

            Moagem a vapor.

            Delegação da SPP.

 

            Refere o Aqueduto com uma citação que mais parece um recado para nós …

            «Várias gerações sucessivas –- escreve Ramalho Ortigão --  acarretaram para esta construção os materiais; e lentamente, pacientemente, foram colocando pedra sobre pedra, para que um dia a água chegasse a Elvas, e bebessem dela os netos dos netos daqueles que de tão longe principiaram a recolhê-la e a canalizá-la. Uma tal empresa é a humilhação e a vergonha do nosso tempo, incapaz de pagar com igual carinho ao futuro aquilo que deve à previdência, aos sacrifícios e aos desvelos do passado»

 

            Sobre o FORTE com a aparente simplicidade de que só é capaz um escritor de qualidade – conta:

            O Forte da Graça (mon. nac.), delineado pelo conde de Lippe em 1762, foi construído de 1763 – 92 sob a direcção do engenheiro francês Etienne e do general Valleré, elevando-se as despesas da construção a 767 contos.

            O forte é construído por um quadrado de 150m. de lado, tendo no centro um reduto circular com três ordens de baterias acasamatadas. «O forte declive das esplanadas, a grande altura da muralha do revestimento da escarpa e contra-escarpa, as galerias seteiradas concorrem para preservar o forte de qualquer ataque imprevisto» (para mais pormenores, cf. Rodrigues de Gusmão,in O Elvense, nºs 37 e 38, 1881)

            Do terraço (388m de alt). Magnífico panorama, cheio de austeridade e grandeza. A. Este., divisa-se a serra de Albuquerque, as estradas para Portalegre, Campo Maior e Badajoz, assim como estas duas últimas pov., e mais para e esquerda. A Penha e a serra de S Mamede. ao S. a serra de Olivença, - a  estrada que leva a esta vila espanhola, que no horizonte se vê branquejar, o Guadiana, a  casaria de Elvas, a serra da Falcata, Monsaraz, a estrada de Vila Boim, e mais próximo os arcos do  Aqueduto, o padrão das linhas de  Elvas e a ermida de  Santo Amaro.

            A Oeste, finalmente, as estradas para Barbacena e Monforte, e a serra da Malafa, onde os franceses colocaram as suas peças para bater Elvas e o forte da Graça. Os campos, muito cultivados desse lado, com terras dum vermelho vivo, são cobertos de olivedos e de searas.

            O forte tem servido várias vezes de prisão política, tendo ali morrido prisioneiro em 1832, o tenente-general conde de Subserra.

            ( 1 ) Para este Forte, de onde se  desfruta de tão vasta panorâmica,  vale a pena acrescentar que se entra por uma porta exterior designada por: Porta do Dragão.

Assim chamada por ser encimada por uma moldura com a figura do monstro mitológico em alto-relevo, tendo a envolvê-la dispostas com simetria peças de artilharia e outros instrumentos de guerra esculpidos em pedra.

 

            Na porta interior, existe um conjunto escultórico formado pelas armas nacionais cercadas por ornatos em estilo D. João V e ladeadas por duas panóplias.

            Por debaixo, numa grande lápide de mármore está gravada uma inscrição em latim que assim se traduz:

                   D.José I, Rei de Portugal

           D. JOSÉ I, AUGUSTO INVICTO, PIO, PARA IMPEDIR A ENTRADA DOS INIMIGOS NA PROVÍNCIA, SOB A DIRECÇÃO DE GUILHERME CONDE DE LIPPE, MARECHAL-GENERAL DO EXÉRCITO PORTUGUÊS, E DE SEBASTIÂO JOSÉ DE CARVALHO E MELO, PRIMEIRO CONSELHEIRO E MINISTRO, FUNDOU ESTE FORTE E O MUNINCIOU COMPLETAMENTE, ANO DE 1776

 

Implícito, está nesta memória, o orgulho da obra construída.

            Talvez um dia, o tempo a apague e ela seja esquecida de vez …

            Ou… talvez, quem sabe! … “Acordemos” com um olhar novo para o património que nos cabe defender e, em nós, desperte vivo o brio de sermos os legítimos sucessores de quem escreveu com grandes feitos e obras a História de Portugal de que estamos a dar testemunho tão descuidamente.

           

(1) Dados colhidos em “O Forte da Graça” por Domingos Lavadinho.

                        Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.277 – 9-Dezembrio- 1994

Conversas Soltas

 

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Segunda-feira, 17 de Março de 2008

FORTE DA GRAÇA - Do nascimento à ruína IX

O Forte da Graça foi erecto no reinado do Senhor D.José I - o reformador.

     Quando o rei entregou a alma ao Criador – sucedeu-lhe sua filha a Senhora Dona Maria I – a piedosa.

     Da Rainha e do Forte, com a moderada censura de quem sofre com tristeza os erros e injustiças que na sua pátria se perpetram, assim conta Rodrigues Gusmão:

 

     “A senhora D. Maria I, mais piedosa do que agradecida aos relevantes serviços do conde de Lippe, esbulhou este general da posse, em que esteve por muitos anos, da bem merecida gloria de haver dado o seu nome a este célebre monumento.

     Pouco depois de haver subido ao trono ordenou, que o forte de Lippe se denominasse de Nossa Senhora da Graça, por haver existido n’aquele sítio com esta invocação uma ermidinha.

     É certo, porém, que no povo d’ Elvas, e no Alentejo, onde esta fortaleza é mais conhecida, tem permanecido a denominação primitiva, reservando-se a prescripta pela rainha para a correspondência oficial entre as repartições do Estado e o governador do Forte”.

 

     Com a agudeza crua de olhos sem perdão assim os mesmos factos são relatados no livro de Costigan que até hoje nos tem dado apoio e companhia:

 

     “Quando o rei D.José expirou, a 23 de Fevereiro de 1777, e o governo foi confiado ao marquês de Angeja e à Igreja, tive, dentro em breve, ocasião de me convencer do meu erro; porque até então o estado desprezível em que se encontrava o exército não provinha senão da indiferença e do desleixo (causas suficientes para destruir um exercito em pouco tempo), mas agora o governo, como se não estivesse ainda satisfeito com tão desgraçada condição, parece apostado em a aumentar desonrando o próprio ser e existência do soldado. Parece que resolveram então desfazer-se o mais depressa possível dos oficiais estrangeiros. A rainha, por erradas noções de compaixão, soltou, indistintamente, todos os malfeitores dos regimentos, que o Marquês de Pombal deixava morrer de fome nas prisões, onde estavam encerrados por sentenças dos tribunais

militares; e a todos perdoando, fê-los reingressar nos corpos a que pertenciam ou mandou-os servir para fora do reino; e este procedimento abominável não é nada em comparação com a protecção concedida pelo ministro aos dois indignos oficiais do meu regimento, ainda suspensos, o major e o quartel-mestre, que o governo desta cidade, por ordem do secretário da guerra, em nome da rainha, pôs em liberdade, como tendo sido injustamente castigados pelo seu coronel, o qual nunca fizera nenhum relatório sobre o seu caso, nem dera o mínimo motivo da sua detenção. E podereis observar que a fim de encontrar um pretexto para reforçar o caso, e subir no conceito da sua soberana, o secretário da guerra recorreu à mais estupenda falsidade: em todas as estatísticas mensais, durante os anos anteriores, foi regularmente mencionada a clausura destes dois homens, assim como a sua causa, que toda a gente conhecia por informações várias. Assim eu soube, pela minha parte, que o que os dois traidores referiam nas suas cartas, relativamente à protecção que recebiam do marquês de Angeja, era verdade”.

 

 Visões mais ou menos claras...mais ou menos escuras... que conduzem à conclusão da verdade histórica de que não houve isenção nas decisões e a injustiça aconteceu.  

 

                       Maria José Rijo     

         

Ao Senhor Henrique Graça – um grande muito obrigado – pela atenção que fez favor de me dispensar – um esclarecimento e – um pedido.

    Na verdade – acertou! Meu Sogro, o saudoso capitão Trindade Rijo foi Comandante do Forte durante anos.

    Meu marido e seus irmãos, com os filhos de outros militares, brincaram soltos e felizes naqueles revelins que conheciam palmo a palmo e a que ligavam um mundo de recordações.

  O pedido: sabe por acaso quadras sobre o Forte que tivesse a gentileza de me enviar?

 

                    Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.273 – 11-Nov. – 1994

Conversas Soltas

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Quarta-feira, 12 de Março de 2008

“FORTE DA GRAÇA” - Do Nascimento à Ruína IV

Vamos lá ver se não perco o fio ao discurso no meio da profusão de referências ao Forte que já acumulei.

Vou tentar arrumar ideias, resumindo: - Um oficial chamado Ferriere, foi constrangido a largar o comando do regimento que chefiava e saiu de Portugal.

Considerando-se, por tal, ultrajado, dá largas ao seu ressentimento editando, mais tarde, sob o nome de Costigan (?) cartas em que retrata de forma impiedosa a sociedade portuguesa do séc. XVIII e onde destila o seu rancor. Inventa, para tal, dois personagens - ingleses de condição distinta – viajando em Portugal com o intuito de tomarem contacto com as defesas militares da nossa fronteira terrestre.

            Nessas cartas atribuem-se a Valleré(o construtor do Forte de Lippe) – que ao tempo vivia em Elvas e que, aliás, é descrito de forma respeitosa: (“era um homem de certa idade, mas activo, ágil e vigoroso, alto, magro, bem firme nas suas pernas como a maior parte dos franceses”) – confidências sobre aventuras pessoais....

Louise de Valleré, sua filha, vem a tomar conhecimento disso e, sentindo-se revoltada pelo que considera desvirtuar a imagem de seu pai, desmente e lança a dúvida sobre a identidade do autor da obra, que, ora, tenho em mãos e estou a repartir com quem me lê.

Costigan existiu ou esconde apenas o “tal” oficial Ferriere?

Sim?- Não?

Duvida-se, mas admite-se.

Qualquer das hipóteses não altera a má imagem que sobre Portugal e os portugueses o livro transmite e veiculou como opinião na época, embora – como também se reconhece – nos ofereça uma profusão enorme de pormenores sobre costumes e factos até da nossa história local.

O que não permite dúvidas é que Valleré com o Governador da Praça, o bispo D. Lourenço de Lencastre e o deão D. João Carlos de Lara (as 2 figuras inspiradoras de “O Hissope” davam o tom à sociedade de então, aqui na nossa terra.

Mas... lá iremos!

Para que “o tal referido rancor” não distorça a história e possamos conservar a ponta da meada – vamos reportar-nos a F.A. Rodrigues Gusmão in: “O Elvense de 1881- Memória Histórica sobre o Forte de Lippe”.

Assim saberemos porque se ergueu o Forte e - porquê – viviam entre nós tantos oficiais estrangeiros.

“Corria o anno de 1761, a 15 de Agosto celebrou-se entre o rei  christianissimo e o rei cathólico  o Pacto de Família, a que el-rei D. José não quiz adherir.(1)

Permanecendo fiel á alliança ingleza, correu todos os riscos da guerra, que no anno seguinte declararam a Portugal a França e a Espanha. (2)

Mal preparados estavamos nós então para resistir e tão formidaveis inimigos. Não tinhamos exército; as praças achavam-se demolidas, os arsenaes desprovidos; quarenta e oito annos de paz haviam-nos amortecido os antigos brios, e, quando os despertasse o patriotismo, careciamos de quem os soubesse aproveitar e dirigir. (3)

            Começou a campanha de 1762 debaixo da direcção do conde de Oriol a barão de Alvito; por intervenção porem, de Jorge II, de Inglaterra, encarregou-se de commandar os exércitos alliados, portuguez e inglez, o conde Guilherme de Schaumburg Lippe, sendo elevado a feld-marechal do inglez, e a marechal general do português. (4)

             Compunham-se os exércitos de nove mil homens de tropas nacionaes pouco disciplinadas, e de seis mil ingleses que obedeciam de mau grado. E tinham em frente quarenta mil espanhoes commadados pelo conde d`Aranha, com officiaes experimentados nas guerras d`Itália, além de um corpo auxiliar de dose batalhões francezes ás ordens do príncipe de Beauvau.(5)

              Com tal desproporção de forças era indispensável, que a estratégia supprisse a deficiência das portuguezas e inglezas.

               O marechal general conde Lippe achou o theatro da guerra já estabelecido na província da Beira; viu-se, por isso, obrigado a cogitar não de um plano geral de defeza, ou de uma primitiva disposição militar de nossas forças, que, influindo sobre – determinação das primeiras operações do inimigo, nos facilitasse a possibilidade de correr promptamente a atalhar o seu progresso por qualquer parte, por onde pertencesse invadir-nos, mas sim de um plano o mais próprio para impedir, que elle chegasse a effectuar a conquista do reino pelo caminho que tinha escolhido. (6)

    E foram tão sabiamente combinadas as suas operações, que não só atalhou o progresso do inimigo com maior damno seu do que nosso (7), mas até o obrigou a desistir do seu começado ataque, e a evacuar a maior parte da província, e a variar o seu projecto de conquista. (8)

 

     “Tu, pequeno Marão, foste a barreira,

         Onde confuso, com eterna injuria,

       Da arrogante carreira

       O hispânico leão quebrou a fúria. (9)

 

            Por modo tão feliz como inesperado terminou este anno a campanha, assignando-se a 10 de Fevereiro do seguinte, o tratado de paz, entre França, Portugal e Espanha. (10)”

 

             Não me conto perder, se Deus quiser, dos pormenores pitorescos do livro de Costigan, da importância da “Quinta do Bispo” no património cultural de Elvas etc, etc...

            Mas, por agora, vamos olhar os fundamentos reais, os “alicerces” que a história mandou que fossem cavados neste chão da nossa terra...

             Esta terra arável que o sol do Estio queima, mas se mostra em flor em cada nova Primavera cantando em cores a sua generosa fecundidade…

 

                       Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº- 2.268 --- 7 / Out / 1994

Conversas Soltas

 

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Fotos retiradas da Internet

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