Domingo, 13 de Abril de 2008

QUINTA DO BISPO – O episódio final?

 

A questão do loteamento da Quinta do Bispo, lançada nestas últimas semanas nas páginas do Linhas conhece hoje um aparente epílogo.

Reagindo à carta aberta que foi dirigida há 8 dias pelo Presidente Rondão Almeida, a ex-vereadora do Município Elvense e colaboradora do nosso jornal, Maria José Rijo, entendeu de elementar justiça deixar aqui algumas outras considerações, que referem serem definitivas.

 

..

Exmo. Senhor Presidente

 

Queira V.Exª aceitar as minhas saudações e, com elas, o meu muito obrigada pela delicadeza de ter gasto comigo algum do seu precioso tempo – escrevendo sobre a carta que neste mesmo jornal lhe enderecei.

Li tudo com a maior atenção – não encontrei as respostas pedidas mas, vamos ao assunto:

 

a)      Não pretendo, nunca pretendo ofender V.Exª ao afirmar que não o escolheria para o lugar que ocupa. Só por distracção V.Exª pode ignorar que eu apoiava outro candidato. Dessa circunstância se deduz à evidência o que afirmei.

b)      Isto nada tem a ver com o Partido Socialista, (não estamos a tratar de ideologias). Eu teria com toda a esperança e entusiasmo apoiando o Eng Barrocas Guerra.

c)      Não disse que V.Exª deveria ter vivido sempre em Elvas. Disse e reitero que V.Exª viveu tempo demais fora de Elvas.

d)     Nada referi sobre o espaço que V.Exª deliberou eleger para sala e sessões – mas – se deseja saber dir-lhe-ei. Em nenhuma Biblioteca Erudita do país – e, é o caso – se entra sem deixar na recepção identificação completa e, até, a malinha de mão. Estas normas não foram instituídas contra quem quer que seja – mas sim – a favor e em defesa de todos e do património bibliográfico que nelas se preserva.

e)      Quando falei em desmantelar a recuperação da Biblioteca referia a paragem de serviços imprescindíveis (que por terem sido qualificados de não prioritários – cito a secretária de V.Exª) foram desprovidos do pessoal que os assegurava. A defesa do arquivo – como deve saber – tem sido motivo de luta tenaz. Dela faz parte até a colocação duma lápide na entrada para a ela vincular o próprio

a)      Presidente da República. Só a corajosa recuperação no arquivo, efectuada o tem salvo até agora ter sido transferido para Portalegre. Numa Biblioteca – o arquivo – é uma componente de valor inestimável – perdê-lo é perder a memória!

b)      Por sua vez, a falta de ficheiros transforma qualquer Biblioteca em simples armazém de livros. Cada livro tem que poder dizer: estou aqui! – Quando alguém o solicita. Essa resposta é fornecida pelas fichas que o situam e identificam entre milhares.

c)      A tudo me pareceu eivado do sentido de ataque pessoal – não responderei. Nem me belisca.

d)     Eu não estou em causa –  sim a Cidade!

e)      Recordo no entanto a V.Exª que nunca me coube, nem desejei, a honra e a responsabilidade de ter sido Presidente da Câmara. Jamais me senti capacitada para tanto. Não tenho de mim o deslumbramento que V.Exª parece ter de si próprio ao comprazer-se com tanta segurança na afirmação dos seus méritos. Sabe que me lembrou Cavaco Silva?

l)        Sobre o meu trabalho que V.Exª desdenha – torno publico que o Sr. Deputado Roque – do Partido Comunista ao ouvi-lo classificar de notável – pelo Presidente da Republica (opinião que pela mão da Drª Estrela Serrano reiterou por escrito em documento que conservo e nem à Câmara de então mostrei) – vendo-me discretamente na cauda do cortejo me segurou no braço e disse: “Vá para a frente. A obra é sua”

          Sorri-lhe grata e fui.

Tive assim a oportunidade de responder ao Dr. Mário Soares quando me perguntou em que área me formara – o mesmo que hoje repito:

Sou apenas uma mulher com alguma sensibilidade que, a viver, aprendeu o Amor pelas coisas.

E, já agora, a talho de foice, que me seja perdoada mais uma nota pessoal.

É que, se do que conta, tiro conforto – tiro ainda mais responsabilidade para o meu comportamento. Meu marido e eu estávamos em Angra – na Terceira – quando do terramoto.

Tivemos o trágico privilégio de ver cair uma cidade.

Sofremos impotentes a tortura de ver esboroar quase todo o casario e as igrejas da ilha.

Vi a meus pés, desfeita no chão, uma Sé quinhentista.

Vi e dei comigo entendendo o pouco que a minha vida valia frente a perda tão irreparável.

Foi este, Senhor Presidente, o meu “doutoramento” em Amor pelo Património Cultural.

Tão imenso. Tão violentamente gravado na minha alma que dele me ficaria – se o não tivera antes – esta feição de sentir quanto significava a vida da árvore, da casa, do beiral, da rua, da pedra, do muro, do banco, do recanto! – Desses aparentes pequenos nadas – que, juntos são o todo do nosso mundo.

m)    Sempre quis ser capaz de saber contar esta experiência, mas a falta de talento não me permitia verbalizar tamanha emoção.

 

Agradeço a V.Exª ter-me ensinado a frase de António Sardinha, que desconhecia, (vasto é o campo do que ignoro!) e tão primorosamente a interpreta.

      “Oh, como os mortos mandam”

É, isso! Ele sabia. Ele foi notável.

Na vida nós passamos. A vida, permanece e continua.

O Património Cultural – seja ele obra humana ou dádiva da Natureza – é o testemunho, a referência das gerações já idas – de quem somos herdeiros e nos torna devedores perante as gerações que hão-de vir.

Hoje, estou só.

Também já devo à Vida a perda de quem mais amei – o meu Companheiro de cinquenta anos.

É uma experiência duríssima que outros antes e depois de mim ou sofrerem ou sofrerão.

Mas, esta é a espécie de morte para a qual atavicamente estamos preparados como preço de existir. É o fim natural do ciclo da vida humana.

A morte do Património, não!

Essa, é um atentado contra o futuro.

Creia-me. Nada, penso, acontece por acaso.

Talvez eu tenha tido que viver tudo isto para dispor, hoje, desta força íntima, que me dá coragem para expor desta forma – direi, até contra natura – pela nossa cidade.

Talvez de tudo eu tenho colhido a valentia de ser humilde para não responder – como poderia fazer – aos despeitados remoques de V.Exª.

Eu não estou em jogo.

A Cidade é que está.

Reflitamos:

1)      Para por cobro ao crescimento desordenado de Elvas (que V.Exª e muito bem vitupera) criou-se passando por todos os trâmites legais o P.G.U.

2)      Entenderam os seus autores – e a cidade aprovou que a Quinta do Bispo deveria ser preservada como zona verde.

3)      Com essa decisão ela serviria de “tampão” ao casario entre a cidade e a Piedade moderando as construções. Conservaria elementos da génese da cidade (a cintura de hortas e quintas que já Aires Varela citava). Com o seu arvoredo, suas tílias centenárias, as suas velhas nogueiras sua arquitectura rural de barroco alentejano e o seu valor histórico-cultural – prestaria tributo à Poesia, à literatura, à inteligência da humanidade pelos ilustres que lá viveram.

4)      Eu era vereadora quando tal se decidiu.

5)      A Quinta era pertença de uma Amiga-Irmã (como às vezes se tem a sorte de ter – e eu tive) – contei-lhe o que constava do projecto. Minha amiga advertiu-me: “Não levantes um dedo para libertar a Quinta do P.G.U. antes quero a Quinta ao serviço da cidade do que retalhada para enriquecer seja quem – nem que seja a mim” Quem (ela era a mãe frente  à justiça de Salomão) a comprou sabia-a zona verde. Alegrou que o fazia porque era do agrado de sua mulher, que talvez lá vivessem, lá criassem cavalos… Fantasias!...

6)      Pouco tempo depois o Quinteiro que lá nascera o filho do falecido Eudócio, que Deus guarde – foi convidado a sair.

7)      O portão foi fechado a cadeado e corrente. As árvores só voltaram a beber da chuva que o céu mandou e muitas sossobraram a sua ruína foi calculada com a precisão de quem executa um acto de terrorismo que foi! E, é!

8)      A calculada degradação dá agora ao lobo a pele de cordeiro para aparecer pela 3ª vez na Câmara a pedir alteração de leis para seu governo.

9)      A Câmara – coitadinha!!! – Comove-se e frente a chorudas contrapartidas vende a sua anuência à alteração da lei.

1)      Duas vezes os técnicos da Câmara, com que trabalhei, e que sei serem Gente de Bem e profissionais competentes disseram não. Lei é lei – igual para todos.

2)      Vem então de Évora o Sr. Arquitecto Barral. Deduzo que o curso dele tem a componente dos “planos de pormenor” – que os nossos ignoram – e o resultado está à vista.

3)      Não sente V.Exª Senhor Presidente que acaba de dar o seu aval a todas as “Brandoas” que alguém desejar?

4)      Não vê que defrauda Elvas em benefício de prevaricadores…

5)      Por muito menos, noutros países, se julgam e condenam estes actos de terrorismo.

6)      No nosso país já se actua contra os incendiários.

7)      Esses, trabalham o fogo – estes, a frio!

8)      Então quem destrói património é premiado?

9)      Até que a operação proposta por V.Exª seja consumada a Quinta é ainda: zona protegida – património de todos nós.

10)  Didáctico era exigir dos proprietários da Quinta a correcção da sua nociva postura cívica – a troco dela lhes ser expropriada.

11)  Eu levantei as questões – do gravíssimo precedente que V.Exª abre sobrepondo interesses particulares aos interesses da Cidade.

12)  Faça-o com o arrepio de repulsa que me causa tanta astúcia e tanta hipocrisia dos actuais donos da Quinta.

 

V.Exª tem o poder de lhe dar solução só que desta vez é definitivo.

V.Exª. não poderá emendar a mão, como no caso da licitação – lembra?

A resposta que V.Exª der – é à história.

É ao futuro. Não a mim.

Isto não é desafio onde alguém perca.

Isto é um ponto crucial na vida de qualquer cidade.

Agora é a nossa – a nossa Elvas!

Terá V.Exª a coragem da humildade de construir o terminal proposto pela Câmara anterior? Em lugar de querer somente realizar projectos próprios? (Recordo o telefonema de V.Exª).

A escolha é sua, Sr.Presidente.

Eu, acabo de responder – como fui capaz – ao seu convite feito pela rádio na noite da sua vitória eleitoral a pedir a ajuda de todos.

Não foi por gosto que vim à ribalta.

Retiro-me! Fiz o que me foi possível. Um pouco emocionada – talvez – como é meu jeito perdoe-me!

Creia, que, bem gostaria de o chamar com toda a convicção de: Meu Presidente. V.Exª é ousado.

E, isso pode ser uma grande qualidade para um chefe que não se deixe cegar por orgulhos.

Parabéns por Elvas cidade branca!

Bem-haja pela iniciativa cultural que nos fez recuar aos tempos da Elvas cidade-limpa que todos recordamos com saudade.

Creia-me respeitosamente.

..

NOTA:

Para que se compreenda a minha insistência em citar o nome do Sr. Arquitecto Barral esclareço.

A Quinta do Bispo pode ser consagrada como Parque com o parecer favorável do Chefe de Divisão da Comissão de Coordenação da Região Alentejo que é justamente o Sr.

..

A MINHA GRATIDÃO

Aos Doutores António Barradas e Sílvio Bairrada

 

Lá, nesse “outro” Alentejo, de onde provenho – quando garota – costumava ir esperar o gado à hora de beber, para falar com um “Grande Mestre” que tive, um velho maioral – o ti Carrapiço.

Na hora da despedida, ele, sempre me dizia:

“não tenho boca avondo que encareça a companhia da menina”.

Hoje, - a mais de meio século de distância sinto a necessidade de fazer minha a humildade dessa pura expressão da alma alentejana – para vos dar a medida do conforto da vossa “companha” que me honra, desvanece, procurarei saber merecer e também a minha gratidão.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 18:30
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