Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Conclusão...

Passaram cerca de quinze anos sobre a decisão – dolosa para a cidade de Elvas – que a Câmara de Rondão Almeida assumiu ao destruir a Quinta do Bispo, apesar do enorme empenhamento demonstrado por muitas personalidades de vários pontos do País, e de Elvas, em cartas, jornais e revistas pedindo e, explicando o porquê da sua – necessária – e justa conservação.
Hoje, onde havia árvores majestosas, vegetação exuberante, controlada, e, entre avencas e fetos, corria água das cascatas para os lagos, há agora lixo – lixo aos montes, lixo, ruínas – e mais lixo...
Na zona arrasada para construção, o empreiteiro, por falência (?), deixou em esqueleto metade das inestéticas moradias com que mutilaram a Quinta na sofreguidão doentia de fazer dinheiro a qualquer preço, mesmo sobre o arraso de importante parte da história de Elvas...
Alias, um dia se saberá porque aconteceu – e quem beneficiou – com tão vil negócio...
Foi um inútil desastre que não honra quem o perpetrou e, nos envergonha a todos por o termos consentido.
Comparou-se, certa vez, a si próprio, Rondão Almeida com o Marquês de Pombal.
Pombal, reconstruiu Lisboa após o terramoto de 1755
mas, dele o que ninguém esquece é a matança dos Távoras, que para sempre lhe turva a memória.
Rondão, promovendo a construção desenfreada que por aí vai, e não conseguindo impedir a perda de valências e serviços na Cidade, – tem sido, ele próprio, "o terramoto", como neste caso, e noutros, ao adulterar com arrebiques parolos a carismática sobriedade da feição de pedra adusta deste velho burgo medieval.
Pode Deus, na sua infinita misericórdia, perdoar-lhe.
Pode!
Porém – A História – essa, jamais.

Maria José Rijo

sinto-me:
música: A Quinta do Bispo
publicado por Maria José Rijo às 20:56
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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

O Forte da Graça- Do nascimento à ruína XII

Trinité Rosa situou acontecimentos e decisões com o rigor matemático do militar. (X )

            Amílcar Morgado relatou com a sabedoria factos que interpretou à luz da história. ( XII )

           

            Hoje, de João Falcato – Escritor e Jornalista – uma visão pessoalíssima (poética diria eu) extraída do seu livro “Roteiro de Amor” editado em Elvas em 1934 com crónicas publicadas neste jornal

 

Sentinela das Alturas

 

            Outra virtude que não tenha aquela construção imensa tem ela a de não ser possível levantarem-se na sua direcção os olhos, sem que ao espírito nos acuda uma evocação de grandeza e de entranhado amor à nossa terra.

            Depois, surge sempre o Forte da Graça, naturalmente, como pano de fundo para as lições do valor destas terras e do heroísmo das suas gentes. Aqui, mais do que em nenhum outro lugar é impossível não ensinar história. O que noutra qualquer parte será feito só por referência, liga-se nesta cidade a centenas de pedras, a um sem número. Da dissertação pura resulta sempre um panorama histórico incompleto, donde, lição proveitosa aqui só aquela que tem por fundo uma pedra, por cenário o cenário da própria história.

            Nesta sequência de ideias, agarrámos, num destes dias, um punhado dos nossos alunos e galgámos aquele monte onde se ergue o Forte da Graça ou o Forte de Nossa Senhora da Graça.

            Era um dia de sol radioso, e o horizonte alargava-se límpido, de modo mesmo que, antes de entrar a porta do Forte, já os nossos olhos estremavam bem o que é nosso e o que é alheio.

            Uma vez ali, quando transpomos a ponte levadiça da fortaleza, abstraindo mesmo de conhecimentos históricos, é impossível não imaginar pavorosos quadros de assédio pertinaz ou angústias de espera atenta, com uma população faminta por detrás da sua guarnição salpicada aqui e ali por decisões brilhantes, até vir enfim o raiar de um dia de tranquilidade.

            Mas, por mais que a sugestão do cenário nos chame, com os seus baluartes, as suas escarpas, as suas seteiras, os seus fogos cruzados, a um mundo de lendários heroísmos guerreiros, mesmo involuntariamente caímos num hino. Não a esses heróis que pela sua fama acodem sempre primeiro à memoria, mas àquele pequenino herói sempre esquecido que sacrificou a paz na sua casa, e até a própria, vida, para que moles imensas como a desta fortaleza se erguessem para o bem estar e sossego dos vindouros: todas aquelas pedras da primeira à última foram erguidas pelo trabalhador alentejano.

            Ó pedras morenas do Forte da Graça, carregadas em braços rudes dos rurais alentejanos, argamassadas com o suor que, durante meses, faltou ao labor das suas terras! Ó fossos do Forte da Graça, covas fundas em que os homens duma geração enterraram a saudade funda dos seus e do labor dos seus campos! Por vós, pedras inúteis, por vós, fossos vazios de combates e de heroísmos, ficaram as herdades sem ganhões, e a terra bendita sem a mão augusta do semeador!

E, um ano, outro ano, e muitos anos, levas de milhares de homens foram roubados aos campos para que tu, ó Forte da Graça, te elevasses na inutilidade da tua grandeza. Cresceu a erva nas searas, comeu o cizirão, o trigo, caíram sem braços que os colhessem os frutos das árvores, ressequiu-se e tornou-se estéril toda a úbere terra alentejana, para que as tuas pedras a que o destino roubou a gloria rubra das batalhas, se erguessem altaneiras, com a altivez da espera frustrada.

            Depois, século em século, jungiu o destino a ti o labéu duma má origem, mais poderoso do que o património propósito de entregar às tuas muralhas a defesa destas terras foi o clamor dos milhares de homens vergados ao peso das tuas pedras, foi a tristeza dos milhares de homens, que, privados da sua pátria por não terem a coragem de se vergarem ao peso das tuas pedras, foram comer o pão do exílio.

            Suor e sangue alentejano foram a argamassa em que os teus muros se ergueram, e, por irisão desse destino, nunca a ti foi dado, ó Forte inútil, presenciar as cenas heróicas para que te destinaram. Em vez de sangue de batalhas, sangue de trabalhador, em vez de sentinela altaneira da defesa da Pátria, presídio militar. Nas tuas muralhas, nos teus baluartes, em vez de heróis, soldados prevaricadores.

            Roubou-te o destino a glória, roubaram-te os homens a dignidade. Quem a ferro mata, a ferro morre. Também tu tinhas roubado ó Forte da Graça, os homens à sua terra, os corações ao seu lar.

            Triste destino na verdade o teu, Forte da Graça. Serás sempre como os monstros doutras eras que não conseguem meter-nos medo porque são fósseis, que não nos infundem respeito porque não souberam morrer com o seu tempo.

            Dum modo geral, tentar dar utilidade a qualquer obra ciclópica em desacordo com os tempos, é obra vã. Só um recurso há. Pedir-se a essas construções que sejam apenas um documento do seu tempo, para que nós as possamos ver com emotivo interesse histórico mas com despreocupada visão de qualquer problema actual. Nas muralhas do Forte da Graça só uma coisa ficava bem: os canhões que as guarneceram na espera do perigo que as circunstancias quiseram que fosse vã, mas que foi espera de amor por uma Pátria estremecida e ameaçada. É bem agradável ver à entrada da sua ponte levadiça rostos amigos a receber-nos mas na realidade só se justificaria aí um cicerone que soubesse simultaneamente elucidar quem lá fosse e afastar-se quando os olhos do visitante se embebessem pelo campo fora.

            Enquanto assim não for, pesará sobre a consciência dos homens a dor do teu amesquinhamento, Forte da Graça, forte sem combates, forte inútil. Forte, que das tuas alturas miras sobranceiro os campos alentejanos, vão é o teu orgulho. Esses campos, porque se estende a vista de quem sobe aos teus cimos, já uma primavera e outras primaveras ficaram secos, já um estio e outros estios ficaram sem fruto, sacrificados à vanidade da tua construção que só serviu para esse sacrifício.

                                                                                 

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.276 – 2 / Dez./ 1994

Conversas Soltas

 

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música: Forte da Graça - 12
publicado por Maria José Rijo às 19:53
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