Sábado, 15 de Março de 2008

O FORTE DA GRAÇA - Do Nascimento á Ruína VII

Retomando, hoje, uma vez mais o livro de Costigan – vale a pena chamar a atenção para a impiedosa lucidez com que se retratam os vícios, de que, já então, enfermava a nossa sociedade.

     A certo passo em conversa com uma personalidade portuguesa “Lord Freeman” pede para que lhe seja explicado: “o que é verdadeiramente um empenho porque não conhece em Inglaterra a palavra que lhe corresponde e: “gostaria de saber a sua verdadeira significação”.  

    A personalidade em questão, um cônsul, explica, e, depois de várias considerações, sintetiza assim:

    “Somente direi que são (os empenhos) pelo que julgo, motivo de uma decadência geral e impedem que toda e qualquer questão seja conduzida como deve ser”.

    Sendo embora que, ainda hoje, é quase sempre, esta a função do empenho e, mesmo tendo em conta que, neste livro quase só se reconhecem méritos aos ingleses, temos que concordar que nenhuma das nossas fraquezas, que o autor comparte generosamente com os espanhoes, deixou de ser escapelizada.

     Mas... voltemos aos artigos de F.A. Rodrigues Gusmão em 1881 in: “O Elvense”

 

     «Do cabedal que se despendeu com esta obra magnifica, nos deixou miúda informação a douta filha de quem a dirigiu, D. Maria Luiza de Valleré, em uma das suas notas ao Elogio Histórico de seu ilustre pae, o tenente general Guilherme Luiz António de Valleré, escrito sábio academico Francisco de Borja Garção Stockler.(14)

     Começou a construcção em Julho de 1763; até principio de 1777 custou 734,890,174 réis, desde o anno de 1778 até ao de 1792 custou 32,308,865 réis: total 767,199,039 réis”

 

III

 

                                           

            M. Valleré teve a satisfação de ouvir a el-rei D. José as mais graciosas palavras de aprovação, quando em Setembro de 1769 foi pessoalmente visitar o Forte de Lippe.

     Também visitou esta fortaleza o príncipe de Waldeck, reputado como um dos mais esclarecidos apreciadores de semelhantes construções; e não só a achou admirável, mas não duvidou conceitual-a, segundo Link affirma (15), como uma obra-prima de arquitectura militar, superior a tudo quanto elle tinha visto n’este género.

     Visitaram o Forte de Lippe os engenheiros franceses, empregados no serviço d’ Inglaterra, que acompanharam o general Stewart na inspecção das fortalezas, e reconhecimento das fronteiras de Portugal (16)»

 

     E, deles, passemos de novo a Costigan, para nos ficar pela leitura o testemunho de que, afinal, talvez não fosse assim muito ortodoxa a forma como se passavam informações – a estrangeiros – quando o Forte ainda não era visitável...

        Parece que “Lord Freeman” que não sabia o que era “empenho” – lhe gozou o proveito antes de aprender o significado da palavra...

 

     «Ao regressarmos do jantar em casa do governador, o Sr. de Valleré disse-nos que, visto não nos ter sido possível visitar o interior do Forte de Lippe, tão digno de ser por nos observado, queria-nos fazer esquecer esse dissabor o melhor que pudesse, e, assim, mostrou-nos, quando fomos a casa dele, todos os documentos que lhe diziam respeito, as suas elevações, secções e contornos, desde a grande cisterna à galeria que corre em redor, por, baixo do caminho coberto, as galeries d’écoute ou galerias de escuta, as oficinas destacadas e as ramificações das minas; a limpeza e carregamento das armas, feita tanto quanto possível no interior do monte, o processo de reparação sem delongas de barracas e parapeitos e de formação de novas baterias de tiro rápido; levantamento de armas no ângulos salientes, para assim poderem ser apontadas em qualquer direcção no momento de fazer fogo, com o processo de as descer para as carregar imediatamente depois; a eficácia das fábricas de pólvora para produzirem este explosivo em quantidade em qualquer emergência; os materiais guardados em armazéns prontos para uso, e muitos outros exemplos de engenho do conde de Lippe na construção e defesa desta importante fortaleza, única deste reino, segundo julgo, merecedora de tal nome.»

 

                      Maria José Rijo

 

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Linhas de Elvas

Nº 2.271 – 28-Outubro – 1994

Conversas Soltas

 

 
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Segunda-feira, 10 de Março de 2008

“Forte Da Graça” Do Nascimento à Ruína II

        É evidente que não tenho a presunção de dar lições de história.

        Essas funções não me cabem, nem delas saberia dar conta.

        O que eu pretendo é falar sobre estas pequenas coisas que, no dia a dia, caiem sob os nossos olhos, nos prendem a atenção, e achamos tão interessantes que sempre nos apetece reparti-las com alguém mais.

Aqui fica dentro dessa linha, um excerto da “tal” carta, do Livro de Costigan, datada de 1778, em que se refere o Forte da Graça – que como se sabe -  foi construído entre 1763 e 1792.

 

 Chegados a Elvas, onde nos propúnhamos permanecer algum tempo, uma das sentinelas que estacionava á porta perguntou-nos num tom altivo donde vínhamos e o que é que nos trazia. João Carlos respondeu que vínhamos de Estremoz e que tínhamos cartas para sua excelência o governador. A sentinela então conduziu-nos ao oficial comandante da guarda, que nos deixou seguir até à casa do governador, acompanhados por um soldado, que levou os nossos cavalos à arreata; ficamos à porta, onde se juntou a populaça para nos ver.

Quando sua excelência acabou de ouvir missa, mandou-nos chamar.

       Lord Freeman apresentou a carta que levávamos. Depois de a ter lido, o governador disse que estimava muito ter a honra de nos conhecer; que a sua própria casa, o seu regimento, os fortes vizinhos de Santa Luzia e de La Lippe, a própria província do Alentejo, toda ela, estavam às nossas ordens para de tudo dispor como melhor nos parecesse; que esperava que o desculpássemos de não nos receber naquele momento, pois tinha vários negócios a despachar, mas que nos pedia o obséquio de jantar com ele à uma hora. (...)

   (...) Depois de muitas palavras sobre nadas, veio o café, e Lord Freeman aproveitou a ocasião para pedir ao governador autorização para ver o Forte de Lippe. Valleré puxou-o pela manga do casaco para o impedir de sofrer uma recusa, mas foi tarde de mais; o governador recorreu a Valleré para que confirmasse as positivas ordens que recebera da corte de não permitir a visita do forte a quem quer que fosse, e de mais a mais não sendo ele, nesse momento oficial ao serviço de Portugal; que um outro viajante também oficial, passara por ali, havia um ano, mostrara também grandes desejos de o visitar, e não o conseguira pela mesma razão.

 Declarou ter muita pena de não poder aceder ao nosso pedido, mas que tínhamos plena liberdade de examinar toda a guarnição e o Forte de Santa Luzia com o major-general. Convidou-nos então a irmos à esplanada na tarde do dia seguinte; daria ordem a um dos regimentos da guarnição para manobra diante de nós. Agradecemos, prometemos não faltar e em seguida despedimo-nos.

    Não dormimos a sesta, como todos os outros fizeram, mas percorremos os baluartes da guarnição. Encontrámo-los em boa ordem devido aos cuidados do Sr. de Valleré, que nos pôs a par de tudo quanto era

necessário para nossa elucidação; achámos as casernas dos soldados e as casamatas (um grande número das quais tinham sido construídas recentemente) asseadas e muito cómodas; os soldados, bem postos, tinham um ar marcial.”

 

              Curiosa a particularidade de se frisar o segredismo que envolvia o Forte de Elvas (que foi considerado uma obra-prima no seu género) não permitindo visitas ao interior da fortaleza, que, ao seu tempo, teria o papel de uma “Linha Maginot” ou uma “Siegfried” dos nossos dias.

       Assim, era defendida de curiosos, estrategas estrangeiros ou possíveis espiões, como arma de guerra, que era, e, como tal fazendo depender muita da sua eficácia, da surpresa que pudesse representar para os atacantes inimigos.

    Mas, para além das referências ao Forte de Lippe é quase romântica para a minha geração e para as de hoje, naturalmente, -que do Forte de Santa Luzia só conhecemos o recorte fantasma das suas nobres ruínas – ler um relato, se bem que breve, dos tempos em que ele era palco duma vida marcial actuante.

     Fica-se, depois disso, a pensar se os “homens” – realmente - não podem ou, não querem alterar o que parece ser o destino fatal de certos monumentos.

    Fica-se a cogitar em nome de que princípios ou interesses se deixam morrer esboroando-se lentamente testemunhos tão ricos da história de um país...

    E, apetece sonhar que nestas noites doces de Outono da nossa terra, Santa Luzia rezará para que “Nossa Senhora da Graça” – seu irmão mais novo (que viu nascer) – resista ao desamor até que os “homens” acordem ao toque de clarins que anunciem a alvorada de dias melhores.

É que as pedras – todos o sabemos - guardam muita da sabedoria dos tempos e contam no presente como contarão no futuro, a quem as escuta - lágrimas, alegrias, humilhações e glórias do passado...

   E, assim, se irá escrevendo a história.

.

                          Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

 

Nº 2.266 – de 23 – Set.-1994

Conversas Soltas

 Fotos tiradas da Internet

e do Blog -->  http://olhares-meus.blogspot.com/

 

 

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