Quarta-feira, 12 de Março de 2008

“FORTE DA GRAÇA” - Do Nascimento à Ruína IV

Vamos lá ver se não perco o fio ao discurso no meio da profusão de referências ao Forte que já acumulei.

Vou tentar arrumar ideias, resumindo: - Um oficial chamado Ferriere, foi constrangido a largar o comando do regimento que chefiava e saiu de Portugal.

Considerando-se, por tal, ultrajado, dá largas ao seu ressentimento editando, mais tarde, sob o nome de Costigan (?) cartas em que retrata de forma impiedosa a sociedade portuguesa do séc. XVIII e onde destila o seu rancor. Inventa, para tal, dois personagens - ingleses de condição distinta – viajando em Portugal com o intuito de tomarem contacto com as defesas militares da nossa fronteira terrestre.

            Nessas cartas atribuem-se a Valleré(o construtor do Forte de Lippe) – que ao tempo vivia em Elvas e que, aliás, é descrito de forma respeitosa: (“era um homem de certa idade, mas activo, ágil e vigoroso, alto, magro, bem firme nas suas pernas como a maior parte dos franceses”) – confidências sobre aventuras pessoais....

Louise de Valleré, sua filha, vem a tomar conhecimento disso e, sentindo-se revoltada pelo que considera desvirtuar a imagem de seu pai, desmente e lança a dúvida sobre a identidade do autor da obra, que, ora, tenho em mãos e estou a repartir com quem me lê.

Costigan existiu ou esconde apenas o “tal” oficial Ferriere?

Sim?- Não?

Duvida-se, mas admite-se.

Qualquer das hipóteses não altera a má imagem que sobre Portugal e os portugueses o livro transmite e veiculou como opinião na época, embora – como também se reconhece – nos ofereça uma profusão enorme de pormenores sobre costumes e factos até da nossa história local.

O que não permite dúvidas é que Valleré com o Governador da Praça, o bispo D. Lourenço de Lencastre e o deão D. João Carlos de Lara (as 2 figuras inspiradoras de “O Hissope” davam o tom à sociedade de então, aqui na nossa terra.

Mas... lá iremos!

Para que “o tal referido rancor” não distorça a história e possamos conservar a ponta da meada – vamos reportar-nos a F.A. Rodrigues Gusmão in: “O Elvense de 1881- Memória Histórica sobre o Forte de Lippe”.

Assim saberemos porque se ergueu o Forte e - porquê – viviam entre nós tantos oficiais estrangeiros.

“Corria o anno de 1761, a 15 de Agosto celebrou-se entre o rei  christianissimo e o rei cathólico  o Pacto de Família, a que el-rei D. José não quiz adherir.(1)

Permanecendo fiel á alliança ingleza, correu todos os riscos da guerra, que no anno seguinte declararam a Portugal a França e a Espanha. (2)

Mal preparados estavamos nós então para resistir e tão formidaveis inimigos. Não tinhamos exército; as praças achavam-se demolidas, os arsenaes desprovidos; quarenta e oito annos de paz haviam-nos amortecido os antigos brios, e, quando os despertasse o patriotismo, careciamos de quem os soubesse aproveitar e dirigir. (3)

            Começou a campanha de 1762 debaixo da direcção do conde de Oriol a barão de Alvito; por intervenção porem, de Jorge II, de Inglaterra, encarregou-se de commandar os exércitos alliados, portuguez e inglez, o conde Guilherme de Schaumburg Lippe, sendo elevado a feld-marechal do inglez, e a marechal general do português. (4)

             Compunham-se os exércitos de nove mil homens de tropas nacionaes pouco disciplinadas, e de seis mil ingleses que obedeciam de mau grado. E tinham em frente quarenta mil espanhoes commadados pelo conde d`Aranha, com officiaes experimentados nas guerras d`Itália, além de um corpo auxiliar de dose batalhões francezes ás ordens do príncipe de Beauvau.(5)

              Com tal desproporção de forças era indispensável, que a estratégia supprisse a deficiência das portuguezas e inglezas.

               O marechal general conde Lippe achou o theatro da guerra já estabelecido na província da Beira; viu-se, por isso, obrigado a cogitar não de um plano geral de defeza, ou de uma primitiva disposição militar de nossas forças, que, influindo sobre – determinação das primeiras operações do inimigo, nos facilitasse a possibilidade de correr promptamente a atalhar o seu progresso por qualquer parte, por onde pertencesse invadir-nos, mas sim de um plano o mais próprio para impedir, que elle chegasse a effectuar a conquista do reino pelo caminho que tinha escolhido. (6)

    E foram tão sabiamente combinadas as suas operações, que não só atalhou o progresso do inimigo com maior damno seu do que nosso (7), mas até o obrigou a desistir do seu começado ataque, e a evacuar a maior parte da província, e a variar o seu projecto de conquista. (8)

 

     “Tu, pequeno Marão, foste a barreira,

         Onde confuso, com eterna injuria,

       Da arrogante carreira

       O hispânico leão quebrou a fúria. (9)

 

            Por modo tão feliz como inesperado terminou este anno a campanha, assignando-se a 10 de Fevereiro do seguinte, o tratado de paz, entre França, Portugal e Espanha. (10)”

 

             Não me conto perder, se Deus quiser, dos pormenores pitorescos do livro de Costigan, da importância da “Quinta do Bispo” no património cultural de Elvas etc, etc...

            Mas, por agora, vamos olhar os fundamentos reais, os “alicerces” que a história mandou que fossem cavados neste chão da nossa terra...

             Esta terra arável que o sol do Estio queima, mas se mostra em flor em cada nova Primavera cantando em cores a sua generosa fecundidade…

 

                       Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº- 2.268 --- 7 / Out / 1994

Conversas Soltas

 

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Fotos retiradas da Internet

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publicado por Maria José Rijo às 20:19
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Segunda-feira, 10 de Março de 2008

“Forte Da Graça” Do Nascimento à Ruína II

        É evidente que não tenho a presunção de dar lições de história.

        Essas funções não me cabem, nem delas saberia dar conta.

        O que eu pretendo é falar sobre estas pequenas coisas que, no dia a dia, caiem sob os nossos olhos, nos prendem a atenção, e achamos tão interessantes que sempre nos apetece reparti-las com alguém mais.

Aqui fica dentro dessa linha, um excerto da “tal” carta, do Livro de Costigan, datada de 1778, em que se refere o Forte da Graça – que como se sabe -  foi construído entre 1763 e 1792.

 

 Chegados a Elvas, onde nos propúnhamos permanecer algum tempo, uma das sentinelas que estacionava á porta perguntou-nos num tom altivo donde vínhamos e o que é que nos trazia. João Carlos respondeu que vínhamos de Estremoz e que tínhamos cartas para sua excelência o governador. A sentinela então conduziu-nos ao oficial comandante da guarda, que nos deixou seguir até à casa do governador, acompanhados por um soldado, que levou os nossos cavalos à arreata; ficamos à porta, onde se juntou a populaça para nos ver.

Quando sua excelência acabou de ouvir missa, mandou-nos chamar.

       Lord Freeman apresentou a carta que levávamos. Depois de a ter lido, o governador disse que estimava muito ter a honra de nos conhecer; que a sua própria casa, o seu regimento, os fortes vizinhos de Santa Luzia e de La Lippe, a própria província do Alentejo, toda ela, estavam às nossas ordens para de tudo dispor como melhor nos parecesse; que esperava que o desculpássemos de não nos receber naquele momento, pois tinha vários negócios a despachar, mas que nos pedia o obséquio de jantar com ele à uma hora. (...)

   (...) Depois de muitas palavras sobre nadas, veio o café, e Lord Freeman aproveitou a ocasião para pedir ao governador autorização para ver o Forte de Lippe. Valleré puxou-o pela manga do casaco para o impedir de sofrer uma recusa, mas foi tarde de mais; o governador recorreu a Valleré para que confirmasse as positivas ordens que recebera da corte de não permitir a visita do forte a quem quer que fosse, e de mais a mais não sendo ele, nesse momento oficial ao serviço de Portugal; que um outro viajante também oficial, passara por ali, havia um ano, mostrara também grandes desejos de o visitar, e não o conseguira pela mesma razão.

 Declarou ter muita pena de não poder aceder ao nosso pedido, mas que tínhamos plena liberdade de examinar toda a guarnição e o Forte de Santa Luzia com o major-general. Convidou-nos então a irmos à esplanada na tarde do dia seguinte; daria ordem a um dos regimentos da guarnição para manobra diante de nós. Agradecemos, prometemos não faltar e em seguida despedimo-nos.

    Não dormimos a sesta, como todos os outros fizeram, mas percorremos os baluartes da guarnição. Encontrámo-los em boa ordem devido aos cuidados do Sr. de Valleré, que nos pôs a par de tudo quanto era

necessário para nossa elucidação; achámos as casernas dos soldados e as casamatas (um grande número das quais tinham sido construídas recentemente) asseadas e muito cómodas; os soldados, bem postos, tinham um ar marcial.”

 

              Curiosa a particularidade de se frisar o segredismo que envolvia o Forte de Elvas (que foi considerado uma obra-prima no seu género) não permitindo visitas ao interior da fortaleza, que, ao seu tempo, teria o papel de uma “Linha Maginot” ou uma “Siegfried” dos nossos dias.

       Assim, era defendida de curiosos, estrategas estrangeiros ou possíveis espiões, como arma de guerra, que era, e, como tal fazendo depender muita da sua eficácia, da surpresa que pudesse representar para os atacantes inimigos.

    Mas, para além das referências ao Forte de Lippe é quase romântica para a minha geração e para as de hoje, naturalmente, -que do Forte de Santa Luzia só conhecemos o recorte fantasma das suas nobres ruínas – ler um relato, se bem que breve, dos tempos em que ele era palco duma vida marcial actuante.

     Fica-se, depois disso, a pensar se os “homens” – realmente - não podem ou, não querem alterar o que parece ser o destino fatal de certos monumentos.

    Fica-se a cogitar em nome de que princípios ou interesses se deixam morrer esboroando-se lentamente testemunhos tão ricos da história de um país...

    E, apetece sonhar que nestas noites doces de Outono da nossa terra, Santa Luzia rezará para que “Nossa Senhora da Graça” – seu irmão mais novo (que viu nascer) – resista ao desamor até que os “homens” acordem ao toque de clarins que anunciem a alvorada de dias melhores.

É que as pedras – todos o sabemos - guardam muita da sabedoria dos tempos e contam no presente como contarão no futuro, a quem as escuta - lágrimas, alegrias, humilhações e glórias do passado...

   E, assim, se irá escrevendo a história.

.

                          Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

 

Nº 2.266 – de 23 – Set.-1994

Conversas Soltas

 Fotos tiradas da Internet

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