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Ficou escrito...

Sei para onde vou @ pela ansia de galgar a distância @ de onde estou @ para o que não sou @ *** Maria José Rijo @@@@ Sonhos em que acreditei -- causas que defendi

Ficou escrito...

Sei para onde vou @ pela ansia de galgar a distância @ de onde estou @ para o que não sou @ *** Maria José Rijo @@@@ Sonhos em que acreditei -- causas que defendi

Carta da Drª. Angelina Martins

 

 

Senhor Director do “Linhas de Elvas”

 

A História coloca desde cedo logo na infância de cada um de nós o nome de Elvas. A aprendizagem do nosso patriotismo recolhe alimento abundante nas páginas dos seus fastos. Depois, ao lado das grandezas que moveram exércitos, sempre houve na vida da cidade razões de referência para a importância do património do País.

 

“A Quinta do Bispo” é, com o seu historial, um exemplo significativo dessa referência. Habitada pelo Bispo Dom Lourenço de Lencastre, que António Diniz da Cruz e Silva imortalizou no seu “O Hyssope”, modelo mundialmente apreciado do Poema Herói-cómico, já por isso devia ser conservada com carinho.

 

Se, porém, tal não aceitarmos como condição suficiente, lembremos que mais tarde vem valorizá-la a presença de António Sardinha. Ora, Elvas tem sabido respeitar, pelo menos até agora a sua figura de patriota e escritor. E se faço esta limitação é porque, com amargura, já o vi também agora referido como “esse literato”.

 

Fui bastantes anos professora e co-proprietária do Colégio Elvense. Criei então com a cidade cumplicidades duradouras, pois, ausentando-me ou mesmo chegada a hora de desaparecer, aí estão os alunos que, com todo o afecto de que era capaz, ajudei a formar.

 

 

Sinto-me, pois, no direito – e sem contradição, no dever – de lhe pedir, senhor Director do “Linhas de Elvas”, que me ceda umas linhas no seu prestigiado Jornal para enviar um apelo aos meus alunos os quais, seja qual for a posição que ocupem, são todos – ou muito me decepcionariam - Elvenses  conscientes do dever de defenderem os valores da sua terra.

 

A Quinta do Bispo é um desses valores. Não tem a imponência do Aqueduto da Amoreira. Não chama à oração como a Sé ou São Domingos. Não acende entusiasmos bélicos como os Fortes que nos convidam a entrar na cidade ou as muralhas que ainda a abraçam. Mas é também um monumento. Está na história. A Arte e o Espírito também são material histórico.

 

Se infelizmente, como sinal dos tempos confusos que vivemos, isso vier a acontecer, será em nome de quê?

Não deixem, meus antigos alunos do velho colégio Elvense que não individualizo aqui porque todos continuam no meu coração – não deixem que a Quinta do Bispo morra afogada em cimento

 

Tenha paciência quem se sentir atingido, mas a resposta quanto a mim, é esta: em nome do lucro e da ignorância, se não apenas do menosprezo por tudo o que transcende o que se pode desenhar numa folha de papel espetada em qualquer cavalete.

 

Nos agradecimentos que lhe apresento por acolher as minhas palavras incluo os que se destinam à promotora desta campanha, a Exmª. Senhora D. Maria José Rijo a quem Elvas fica a dever mais esta prova de dedicação.

 .

Atentamente

Angelina Vasquez Martins

 .

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Jornal Linhas de Elvas

16 - Dezembro - 1994