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Ficou escrito...

Sei para onde vou @ pela ansia de galgar a distância @ de onde estou @ para o que não sou @ *** Maria José Rijo @@@@ Sonhos em que acreditei -- causas que defendi

Ficou escrito...

Sei para onde vou @ pela ansia de galgar a distância @ de onde estou @ para o que não sou @ *** Maria José Rijo @@@@ Sonhos em que acreditei -- causas que defendi

Sardinha, a Quinta do Bispo – Porquê? (I)

 

 

 

Quando por qualquer circunstância temos uma mazela, por mínima que seja, é certo e sabido que tudo lá encalha e toca...

Comigo está a ser um pouco assim.

Ando distraidamente a arrumar papelada e catrapus! Lá me aparecem jornais antigos com artigos sobre António Sardinha!

Há dias encontrei um de Eurico Gama, datado de Maio de 1970! - Agora, outro, desta vez de Joaquim Tomaz Miguel Pereira com data de 9 de Janeiro de 1981!

Faço permuta de livros com um grande amigo, muito interessado e conhecedor destas coisa de literatura, e o que é que ele me traz desta vez? - Nada mais, nada menos, do que a Revista Cultural de Portalegre, – “a cidade” de Julho/Dezembro de 1988, toda ela dedicada a quem havia de ser: - António Sardinha.                               

Se isto não é uma mensagem do destino, então não sei como interpretar semelhante coincidência...

Vai daí, decidi-me a destrinçar para mim própria e para quem por tal se interessar, – a Quinta do Bispo e António Sardinha porquê! - Por teimosia? Por masoquismo sabendo por experiência própria e publica ao que me sujeito? - Não. Claro que não!

Os dias da Quinta estão contados. Se bem sei, restam-lhe apenas dois meses, no máximo, para conviver com a esperança de que a insensatez dos homens nunca ousaria sepultar a história, e, do ponto de vista turístico, destruir a galinha dos ovos de ouro, mas a cupidez e o desamor, muitas vezes fazem obra destruindo o futuro das cidades.

As gerações futuras ficam defraudadas, empobrecidas. - E, é pena!

                  Ramalho Ortigão

Já Ramalho Ortigão – referindo o sacrifício que representou a construção do nosso Aqueduto, escrevia: “Uma tal empresa é a humilhação e a vergonha do nosso tempo, incapaz de pagar com igual carinho ao futuro aquilo que deve à previdência, aos sacrifícios e aos desvelos do passado.”

Porque não me furto ao que considero meu dever, e também porque me parece justo que sempre que alguém se propõe destruir uma coisa, que é de todos, é justo que saiba em consciência o quê. - O que se destrói, voltarei a falar da Quinta do Bispo.

Irei assim, se Deus quiser, sempre que possível, tentando explicar o porquê da minha insistência em tratar, mais uma vez, deste assunto.

Repetidas e bastas vezes, um outro amigo meu, formado em história, e profundo conhecedor da nossa história local, me repete:

Elvas é das cidades do nosso país aquela a que Portugal é mais devedor.

Elvas foi a cidade mais sacrificada e mais gloriosa na luta pela nossa independência.

Aqui, até um bispo, mandou destruir a igreja de S. Sebastião para que ela não fosse profanada pelos franceses aquando das invasões.

Essa igreja situava-se nos terrenos da Quinta do Bispo!

Vamos então começar daqui a nossa evocação? - Vamos, que vale a pena.

Era uma vez...

...De “Teatro das Antiguidades de Elvaspasso a transcrever, actualizando a ortografia.

«....No ano de 1506 a peste, que chamaram grande invadiu, e matou quase a a maior parte da gente deste Reino, desconfiada a gente do socorro humano recorreram ao divino, tomaram por intercessor ao invicto mártir S. Sebastião levantando-lhe os de Elvas uma ermida mais de duzentos passos distante para o poço de Cam Cam, impuseram os moradores para o fabrico da Igreja um púcaro de azeite sobre cada moedura de azeitona. Pela intercessão deste Santo foi Deus servido aplacar tão grande mal.

                     São Sebastião, por Mantegna.

Depois pelo nascimento del rei D. Sebastião se ordenou procissão geral solene que todos os anos no dia do mesmo Santo vai à sua ermida.»

Poderíamos começar a falar de mais fundo, no tempo, da identidade daquele espaço

Podia ser, mas começar pela evocação dum milagre atribuído a S. Sebastião, pela gratidão duma população, pela devoção da gente de Elvas, – dos nossos antepassados –, parece-me uma forma particular e verdadeira de começar esta narrativa

Hoje pouco mais direi. Mas para aqueles mais distraídos que porventura encolhendo os ombros digam para si mesmos: - o que temos nós a ver com estas coisas. Tão lá do fundo dos séculos vou citar desse tão falado escritor falecido há poucos dias – José Cardoso Pires – um pouco do que ele escreveu sobre a importância da memória.

“Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso”

Porque a história é a memória dos povos vale a pena sem saudosismos piegas preservar a imagem da nossa própria identidade não destruindo o rasto dos que a fizeram com o valor das suas vidas e obras. Vale a pena viver com a consciência de que fruímos um legado que nos cabe respeitar e nunca devastar, e agir em conformidade com esse imperativo desejo de passar honradamente o testemunho.

 

Maria José Rijo

 

 

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.482 – 11 - Dezembro de 1998

 

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