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Ficou escrito...

Sei para onde vou @ pela ansia de galgar a distância @ de onde estou @ para o que não sou @ *** Maria José Rijo @@@@ Sonhos em que acreditei -- causas que defendi

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Uma sala que tem História

ELVAS preserva o “Bichinho da Bibliofilia”

Biblioteca Municipal expõe obras que são preciosidades

 

Correio da manhã

26- Dezembro de 1989

Texto de Inácio de Passos

Uma sala que tem História

 

Uma das salas da Biblioteca Municipal de Elvas é bastante curiosa, por reproduzir uma biblioteca caseira em todos os seus pormenores.

Nota-se nela a ausência de alguém, a não presença humana que fazia parte activa do ambiente recriado ali.

E trata-se na verdade da reposição do lugar caseiro de leitura de um dos elvenses ilustres, de nome EURICO GAMA, um investigador que deixou o seu nome ligado à cidade.

Maria José Rijo descreveu-nos a pequena e interessante história daquela sala, diferente de todas as outras:

Trata-se da biblioteca de Eurico Gama, um erudito elvense falecido em 5 de Junho de 1977. Fomos a sua casa buscar as estantes dele e aqui as montamos da mesma forma que lá se encontravam. A sua viúva ofereceu-nos a mesa onde ele trabalhava no Inverno, e a mesa onde fazia os seus trabalhos de investigação no Verão, e reconstituiu-se aqui o meio ambiente em que ele vivia, ou pelo menos onde passava grande parte do seu tempo.

O Eurico Gama era um homem baixo – prosseguiu – com uma deficiência física, motivo porque as estantes tinham pouca altura, para que a elas lhe fosse possível chegar sem grande esforço. Eurico Gama não foi em vida um homem rico, mas tinha uma alma nobre, muito nobre. Ele amealhou estes livros todos, eram o seu tesouro e deixou-o à sua cidade.

O seu gesto merecia ser respondido por nós com toda a ternura, e por isso reconstituímos aqui o seu ambiente de estudo, para darmos, mais ainda, a medida humana ao seu nobre gesto de oferecer à cidade aquilo de que mais gostava: os seus livros.

Sobre a secretária a que diariamente Eurico Gama se sentava a ler, encontra-se o livro aberto, e os óculos repousam sobre o livro, dando ao visitante a impressão de que está para chegar, de um momento para o outro, alguém disposto a reencetar a leitura interrompida.

Maria José Rijo justifica esse singelo detalhe daquele diferente espaço da Biblioteca, com estas palavras:

Eurico Gama morreu repentinamente e deixou o livro que estava a ler na secretária para continuar a leitura no outro dia. Só que esse outro dia não lhe chegou jamais, por a morte colher quando ele não a esperava. Nós colocámos o livro e todos os objectos nos mesmos locais em que ele os deixou pela última vez que esteve na sua biblioteca, para melhor se entender o seu ambiente de trabalho.

Traçando um curto retrato dos últimos momentos do investigador elvense, disse ainda:

Ele era um homem que não esperava a morte quando ela lhe chegou. Tudo indica que esperava viver mais, por não considerar completa a sua obra. Já de cama, doente, quando um amigo o foi visitar disse-lhe:”tenho ainda tanto que fazer…” E tinha na verdade ainda muito que fazer, embora a sua obra seja bastante importante. A sua grande preocupação foi sempre a sua cidade, Elvas.

Ainda sobre Eurico Gama aquela sala da Biblioteca Municipal, Maria José Rijo tinha mais a acrescentar, traçando-nos um quadro que bastante a sensibilizou, como nos disse:

Quando fizemos a inauguração desta casa Eurico Gama foi o investigador. Ora acontece que as crianças da escola tiveram por programa escolar fazer uma investigação sobre Eurico Gama, e vieram então aqui ler os seus trabalhos. Foi um quadro muito enternecedor, muito bonito, ver os meninos a ler os seus trabalhos sobre o Eurico Gama, quando ele fora, afinal, o grande investigador da cidade de Elvas. São imagens que a vida nos reserva e que jamais se esquecem.

 

Correio da manhã

26- Dezembro de 1989

Texto de Inácio de Passos

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