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Ficou escrito...

Sei para onde vou @ pela ansia de galgar a distância @ de onde estou @ para o que não sou @ *** Maria José Rijo @@@@ Sonhos em que acreditei -- causas que defendi

Ficou escrito...

Sei para onde vou @ pela ansia de galgar a distância @ de onde estou @ para o que não sou @ *** Maria José Rijo @@@@ Sonhos em que acreditei -- causas que defendi

Sardinha, a Quinta do Bispo – Porquê? (II)

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.485 – 1/Janeiro /1999

Conversas Soltas

 

 

 

         Dedico estes comentários de hoje, a todos quantos me têm apoiado, – e são bastantes – e que simbolizo na pessoa do senhor Arlindo Sousa Pinto, que não conheço, mas a quem estou grata por ver como entende as minhas razões, e a quem devo estima.

Dedico ainda, e também, a João Carpinteiro e António Rodrigues, que muito estimo desde há dezenas de anos, por razões que eles próprios intuirão...    

Dedico também a quem comprou a Quinta empenhando a sua palavra na afirmação de que a habitaria e nunca a destruiria... (e, já até, a terá vendido a um cidadão espanhol - garantem-me!)

Dedico ainda ao actual senhor Presidente da Câmara, pela evidência de como, usa os quase setenta por cento de votos que tão generosamente lhe foram confiados, confundindo serviço, com mando....

Faço-o sem rancor, sem arrogância, – faço-o com a humildade de quem com a idade aprendeu, que é sempre tempo de repensarmos as nossas próprias acções e, as nossas próprias palavras.

       Pertenço a uma geração em que palavra, honra, dever, dignidade, eram valores pelos quais se vivia e lutava.

       Pertenço a uma geração em que não era preciso ser ilustre para perseguir tais ideais – bastava para tal, a consciência de ser gente, para se e pugnar para ser pessoa de bem. Gente credível, gente de compromisso.

.        Quando alguém pronunciava essas tais palavras, todos sabíamos que elas significavam sentimentos, compromissos, que representavam esses valores.

         Hoje, estão esvaziadas de sentido.

Perseguem-se ideais diferentes. Tomam-se por ideais valores materiais e com eles se pretendem substituir os valores morais. As pessoas são as mesmas. Têm as mesmas capacidades, as mesmas potencialidades. Apenas põem a tónica no imediatismo, na pressa desenfreada, na ilusão de que todos podem colher tudo ainda que o não tenham semeado, ou que nada semeiem.

Substituiu-se a decisão moral pela decisão política, que devendo continuar a ser ainda e principalmente decisão moral, se despe desse atributo para passar a ser apenas decisão de oportunidade ou, pior ainda, apenas de oportunismo. O brilho muitas vezes cega. Ofusca até a qualidade do material que brilha, mas seduz, embora também iluda.

Este ano está no fim.

O frio impera.

         A chuva chegou finalmente, apetece sentar ao lume e contar histórias. Não me vou furtar à invocação de um elvense – o senhor Alves – que eu conheci quando era estudante no liceu de Beja e ele era um velho Senhor, cheio de dignidade que percorria os bairros pobres protegendo os necessitados, recolhendo crianças órfãs, despojando-se de tudo em favor de quem precisasse.

O senhor Alves pertencia a uma família Abébora. Gente de meios que habitava uma grande casa na rua de Alcamin. Cresceu com a psicologia do menino rico inútil. Frio, altivo, arrogante. Ganhou fama e proveito de conquistador e usou e abusou de mulheres e moças quantas quis. Até que um dia comprometeu a filha de alguém que foi capaz de o “acordar”. Fê-lo sob um terrível estado de embriaguez. Quando sóbrio, ao tomar conhecimento dos excessos cometidos e das suas consequências prometeu sob palavra de honra que jamais na sua boca entraria uma só gota de álcool que fosse.

         Quando no fim da vida ao ser-lhe ministrado um novo medicamento. Não tendo já capacidade para ler a sua composição indagou o que continha e ao ser-lhe dito que continha vinho do Porto disse: não tomo nem que daí dependa a minha morte. É que eu prometi a” um homem de bem “que na minha boca jamais entraria álcool.

         Eram assim os caminhos da dignidade...Da honra...Da palavra empenhada.

         Penso e repenso no que vejo e ouço acontecer...

Às vezes, muitas vezes, nem já se põem em causa as decisões tomadas, mas, sim, os caminhos que a elas conduziram. 

           

    O ano de 98 despede-se. Ponho algumas das estrofes da Epifania dos lilases de António Sardinha a perfumar o seu adeus e com elas, também agradeço a quem me lê desejando um muito feliz 99.

 

 

Florescem os lilases brandamente,

florescem os lilases com brandura.

E o seu perfume tépido, envolvente,

de tentações povoa a noite escura.

 

De tentações povoa a noite lenta

o aroma dos lilases em segredo.

Há no silêncio um bafo que adormenta,

um bafo perturbante de bruxedo.

 

 

         FELIZ 1999

        Maria José Rijo