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Ficou escrito...

Sei para onde vou @ pela ansia de galgar a distância @ de onde estou @ para o que não sou @ *** Maria José Rijo @@@@ Sonhos em que acreditei -- causas que defendi

Ficou escrito...

Sei para onde vou @ pela ansia de galgar a distância @ de onde estou @ para o que não sou @ *** Maria José Rijo @@@@ Sonhos em que acreditei -- causas que defendi

DAQUI A POUCO… SÓ MAIS UM POUCO…

“ Se este esboço de monografia conseguir o fim patriótico a que se destina – o de o vulgarizar a alta importância da nossa primeira obra de fortificação militar e o esforço titânico dos homens que a construíram – o autor dá-se plenamente por satisfeito”

Forte da Graça, 18 de Abril de 1929.

 

Excerto da introdução de Domingos Lavadinho ao seu livro “O Forte da Graça Esboço de uma Memória Histórica e Descritiva”.

 

Citando, Aires Varela, conta Domingos Lavadinho, no seu livro – “O Forte da Graça Esboço de Uma Memória Histórica e Descritiva” – que foi a bisavó de Vasco da Gama, Catarina Mendes, quando já viúva de Estêvão Vaz da Gama com quem contraíra matrimónio aí por 1.380 – quem promoveu a reedição duma ermida abandonada, que fora parte do Convento de S. Domingos da Serra, e, nela fez colocar uma imagem de Nossa Senhora da Graça.

Essa imagem, por milagrosa, deu seu nome ao monte, antes chamado de S. Domingos, à ermida e posteriormente por Santa Maria da Graça se designou também o forte em torno dela construído sob a traça do Conde de Lippe na segunda metade do séc. XVIII.

- Nestes tempos. Nestes nossos tempos em que com palavras empoladas tanto se fala na glória dos descobrimentos, enraizamentos históricos e mais floreados de retórica – bonitos de dizer – para dar ares e pose…

- Nestes tempos, apetece perguntar onde pára a consciência do que tão emproadamente se apregoa e a coerência entre a atitude e a palavra de compromisso que tão ligeiramente se esquece…

É que o divórcio entre ambas reduz tudo à cotação de pechisbeque e a eloquência a palavreado de banha da cobra enganosa e aviltante.

quando o estado resolve alienar património sem se dar ao cuidado – sequer – de auscultar a cidade que o comporta e a que ele dá carácter…

- Como se sente o País?...

- Como se sente a cidade lesada e agredida?

Os governos passam, mas os efeitos de decisões destas são irreparáveis e permanecem…

Espera-se dos governos que sirvam os povos.

Não é imaginável que os espoliem e envergonhem.

Enquadrando estes problemas entre outros da nossa vida actual, somos levados a reconhecer que decisões como esta, que desrespeitam a história e patenteiam falta de coragem para recuperar património, falta de criatividade, falta de sentido de responsabilidade na defesa de valores pátrios…

(Talvez esta expressão agora seja subversiva ou pejorativa…)

Eu uso-a como “in illo tempore” a aprendi repassada de emoção…

Mas, dizia eu, decisões como esta são a causa primeira de muitas outras coisas que se deploraram.

- Quando vêm de cima os exemplos de falta de devoção por valores herdados…

- Quando vem de cima a negação de idiais e princípios que estão no fundamento de ideias e sonhos…

- Que espaço se deixa aos novos, que caminhos se lhes abrem, que horizontes de vida se lhes oferecem?...

- Se nada há que valha a pena honrar, respeitar, salvar, conversar a solução “luminosa” proposta é arranjar dinheiro quanto mais fácil, melhor, seja lá à custa do que quer que seja…

- Como estranhar depois a frustração, o desencanto que levam à droga e à marginalidade as gerações para quem somos referência?!

Olhando e sofrendo a leviandade de tão presunçosas soluções…

Olhando e sofrendo com o estado deplorável a que chegou um monumento ímpar que, há meia dúzia de anos – frente à impotência da cidade – deixaram os “auto-proclamados donos” degredar…

Olhando e sofrendo a dor de uma cidade submissa frente à arrogância de posse expressa pelas placas (Património do Estado) que tornam intocáveis imóveis, preciosos, que se foram arruinando e que teriam – sem grandes gastos – se aproveitados a tempo, resolvido problemas de falta de espaço que sufocaram rasgos de progresso que, assim, a Elvas foram negados…

- Olhando e sofrendo a afronta de à cidade não terem sido restituídos esses bens que sendo do estado – são património do povo e, neste caso, dos elvenses e que terminada a sua serventia militar deveriam de imediato abrigar outros serviços de interesse público…

… Sabendo todos e qualquer um de nós que edifício abandonado é edifício condenado à morte … É lícito concluir (excluído, claro, a hipótese de irresponsabilidade de quem decide) que esta não é uma situação de acaso mas, sim, o resultado lógico de um maquiavélico projecto…

Mandar, decidir… é antes de mais assumir a obrigação de prever, planear…

- Pensando em tudo isto e no desembaraço estranhamente singular, como tudo se despreza, e pisa e atropela de forma tão simplista – julgo ver o nosso país como quem vê o Paco da anedota dos pistoleiros:

- “Como te chamas?

- Paco,

- Te llamavas!”

Depois, terminada a proeza o “herói” afasta-se, impune, assoprar os canos da arma que volteia no dedo metido ainda no gatilho e encaixa de novo no coldre.

- Pois é!

- Com tiros tão certeiros, daqui a pouco…

- Só mais um pouco…

- Portugal – era!

 .........................

NOTA:

Ainda hoje não percebo porque o retrato de “Vítor Manuel” que fora oferecido a “Lanceiros I” foi parar a Estremoz!

Porque não herdou o Museu de Elvas um documento iconográfico tão valioso que era legitimamente seu?!!

Extinguiram… extinguiram… até ao pormenor dos documentos históricos…

Já há anos, falei nisto, neste jornal.

 

                                         Maria José Rijo

 

 

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.254 – 24 de Junho de 1994

Conversas Soltas

 

O FORTE DA GRAÇA-Do Nascimento á ruína (XV e último)

Nascido em nome de valores intemporais – Pátria e Liberdade – valores que se honram com a vida e também com a morte – agoniza lá do alto da serra de Nossa Senhora da Graça o nobre Forte de Lippe.

            Olhos argutos duma pátria – que para viver já não precisa de esmiuçar, vigilante, a vastidão dos horizontes que nos longes se confudem com as terras da temida Espanha, que de lá se avistam – a História os dispensou por inúteis.

            Assim, o tempo que a pouco e pouco aperta o cerco de morte á majestosa fortaleza – que pedra por pedra vai ruindo – como pedra a pedra foi erguida – vai passando …

            E os sonhos e os mitos que sempre povoam e adornam tudo quanto na vida perde o sentido de imediata utilidade e teimosamente resiste ao abandono conservando dignidade o porte, sobre ele se vão avolumando.

            E, um dia, há-de falar-se do Forte, como de uma lenda e dele se dirá: - era uma vez…

            E, hão-de lembrar-se os prisioneiros que o habitaram e desciam a encosta, a horas certas, até á fonte do Marechal, carregando ao ombro os barris, que no regresso, cheios de água, impunham com o seu peso, a dureza da sentença que mais aviltava o agravo da privação da liberdade.

            E, hão-de citar-se – dos reclusos – as quadras nascidas das suas almas queixosas de um destino sempre avaliado por cruel e injusto.

            Cancioneiro ingénuo de doloridas mágoas…

 

Maldito Forte da Graça

Presídio de desgraçados

Sepultura de homens vivos

Debaixo do chão enterrados

 

Adeus ó Forte da Graça

Peço para lá não ir

Tal é a minha desgraça

Choro eu p’ra outro rir.

 

Logo à porta do Forte

Esta um dragão encantado

Quem lá entra já não sai

Fica por lá encerrado.

 

Cheguei à secretaria

Fui presente ao capitão

Por ser o primeiro dia

Deu-me logo um “ramotã”

 

           

            Embalada a nossa sensibilidade pela toada das queixas tudo parece apontar só dor e ressentimento de lendários martírios.

            Mas, um dia, uma notícia de um luto num jornal provoca um inesperado contributo ao outro lado da história que então se investiga…

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EXS, ENCORPORADO DD ANOS

35/37 DEVEDOR IMENSAS

GENTILEZA FALECIDO APRESENTA

SENTIDAS CONDOLENCIAS

EXMA FAMILIA

 

           

            E, surgem nomes, muitos nomes…

            E o espírito serena e pondera.

            E a memória evoca a vida activa e “familiar” dentro da fortaleza com os incorporados cada qual com suas recordações, suas habilidades, seus préstimos.

            E revêem-se rostos e mãos de quem ensinou jogos e contos das suas terras distantes, de quem fez brinquedos – de quem reencontrou jeitos de infância para confraternizar com as crianças, filhas dos militares da guarnição com quem faziam amizades.

            Recorda-se o artesanato, os móveis, as coisas que habilidosamente faziam para vender e ganhar os dinheiritos do tabaco, dos selos e das cartas onde se falava de amor e saudade.

            Lembra-se a sua prestação de esforço para a conservação dos prédios militares e outras obras de que a cidade ia carecendo.

            Dessa mão-de-obra nasceu também o campo de futebol – para onde vinham trabalhar, como sempre, sob escolta.

            E, porque é verdade que só os cadastrados tinham mais duro tratamento – o coração aquieta-se e aceita a evocação dos “tormentos do barril” como preço, pelo qual, os homens que em horas aziagas atentaram contra direitos de outros homens pagaram o seu tributo para reconquistar a liberdade.

            Sendo a história do Forte feita da soma de muitas e diferentes histórias – por outros valores – também em verso o povo o celebrou.

 

Se fores a Elvas

Vai lá acima ao Forte

Que é onde os franceses

Temeram a morte

 

            Porque é verdade que este e outros cultos lhe são – também – devidos…

            Da sua origem conserva o Forte o severo perfil de sentinela…

            Da sua existência as marcas indeléveis dos anos…

            Da sua sorte – falará o tempo contando no futuro – dele – e de nos…

Porque este jornal chegará aos seus leitores na semana de Natal, desejo que ele, a todos leve, os meus votos de Boas-Festas – e que, para si próprio – os aceite também – no abraço de grata amizade em que envolvo toda a equipa que o produz.

                       Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.279 – 23-Dez. — 1994

Conversas Soltas

 

 

O Forte da Graça - Do nascimento à ruína – XIV

            Nos anais do Forte da Graça consta apenas uma visita real com pompa e circunstância …

            Afora ela, há a notícia de D. José I em 1763 ter visitado as obras logo no seu início.

 

Uma visita de D. Pedro V ao Forte da Graça

                                          

 

            Encontrando-se em Elvas, em 1860, visitou D. Pedro V o Forte da Graça, sendo governador do mesmo o brigadeiro Frederico Leão Cabreira. O Jornal a Voz do Alentejo, no seu nº 7 de 24 de Outubro de 1860, descreve assim este facto:

                                   2000 Reis 1859  -  D. Pedro V ( EM OURO )

            «Depois do jantar, Sua Majestade tinha-se dignado prevenir pessoalmente o ex.mo Conselheiro Frederico Leão Cabreira, General Governador do Forte de Nossa Senhora da Graça, de que no dia 19 (de Outubro de 1860) pelas 6 horas da manhã visitaria aquela fortaleza.

            «Com efeito no dia indicado e hora partiu o Augusto-Soberano do palácio episcopal em que se achava alojado, acompanhado pelo Sereníssimo Senhor Infante D. João e por toda a corte, assim pelos Ex.mos Conde do Bonfim general comandante da divisão, brigadeiro Silveira Pinto governador de Elvas, brigadeiro graduado Mancos - comandante dos engenheiros da mesma divisão, e outros oficiais e pessoas distintas que quizeram ter a honra de acompanhá-lo.

            «Iam na frente do real cortejo dois oficiais do Estado-maior servindo de batedores e uma força de cavalaria como guarda avançada, e na retaguarda dois esquadrões da mesma arma, salvando esta praça quando sahiu d’ela.

            «O ex.mo brigadeiro Cabreira, governador do Forte, com o ill.mo tenente-coronel Ripado, e mais oficiais do respectivo estado maior, esperavam a Sua Majestade em devida forma à entrada da primeira barreira da estrada coberta, e logo que o excelso-Soberano ali chegou teve a honra o mesmo ex.mo Governador de proceder à entrega das chaves do forte recitando de cor a seguinte breve alocução:

 

            «Senhor! – Na qualidade de governador deste Forte, ou para melhor dizer deste importante e perfeito modelo de fortificação, e cumprindo o mais grato dos deveres deste cargo, eu tenho a honra de apresentar a Vossa Majestade, com as chaves deste mesmo Forte os mais puros protestos de verdadeira dedicação, constante respeito e alta lealdade de toda a sua diminuta guarnição. Esta guarnição, Senhor, é composta de portugueses e os bons portugueses tiveram em todos os tempos por seu máximo interesse o interesse da sua pátria, e por sua máxima gloria a glória dos seus augustos Soberanos.»

            «Orgulhosos por ser Vossa Majestade o nosso actual Soberano, e por vermos em Vossa majestade concentradas todas as altas virtudes que transluziram nos ínclitos heróis, seus Augustos progenitores, não podemos deixar de fazer, como fazemos, constantes votos ao céu pela conservação da preciosa vida de Vossa Majestade, e de toda a sua Real Família, com infindas prosperidades; bem certos de que as prosperidades de Vossa Majestade farão constantemente florescer e prosperar esta sempre heróica monarquia».

            «Sua Majestade, conservando-se a cavalo, dignou-se ouvir atentamente a mesma alocução à qual teve a bondade de responder em breves termos com aquela alta e eloquente benevolência que brilha em todos os seus régios actos e discursos; dizendo em resumo – que o ex.mo governador deveria conservar em seu poder as mesmas chaves em prova de confiança quando aquele cargo lhe foi confiado.»

 

            «Em seguida apeou-se Sua Majestade e todo o Real cortejo, e guiado pelo mesmo governador se dirigiu à formosa capela do forte onde fez oração a Nossa Senhora da Graça, padroeira do mesmo Forte, e que já o era daquela localidade antes de ser fortificada. A capela achava-se decorada, com a possível magnificência, devido principalmente ao zelo do muito digno capelão o rev. Padre António Joaquim da Assunção Cruz, que com as devidas vestes sacerdotais, esperou Sua Majestade à porta principal da mesma capela para ter a honra de lhe apresentar o hissope na forma do estilo. Concluída a oração passou o excelso monarca a examinar em sua totalidade o complexo das obras do mesmo forte subindo para isso ao pavimento principal da residência dos governadores, e pouco depois ao observatório que sobre ele existe, donde se descobre um vasto horizonte oferecendo as mais agradáveis e variadas vistas. Ali se demorou mais de meia hora, falando com diversas pessoas sobre vários objectos dos que se apresentavam á vista; descendo depois ao pavimento inferior, e passando a percorrer os terraplenos dos baluartes e cortinas da magistral, com seus flancos casamatados.»

 

            «Terminado este giro passou Sua Majestade a visitar alguns dos paioes do Forte e os armazéns do material de artilharia, e ultimamente os quartéis ou casas matas que servem de alojamento aos destacamentos do 2º regimento de artilharia e 17 de infantaria, que constituem aquela diminuta guarnição; o que tudo se achava no devido arranjo e ordem.»

            «Depois desceu ao fosso da magistral, e entrou na vasta e completa galaria de contra minas da contra escarpa percorrendo parte dela; e em seguida regressou ao fosso, e subiu  á estrada coberta; da qual percorreu grande parte, demorando-se em vários pontos salientes donde melhor se descobria a campanha.»

            «Ali deu o excelso monarca por finda a sua real e sempre lembrada visita; e dirigindo-se á porta principal do Forte, seriam nove e meia horas da manhã, montou a cavalo e regressou a esta praça com toda a corte e acompanhamento na mesma ordem com que para lá se dirigira.»

 

            Suscitando ainda tanto interesse as visitas ao Forte (pese embora a sua avançada decadência), dá ideia que a reconstituição desta visita real, com todo o aparato que a envolveu, poderia ser um aliciante cartaz turístico … para as festas da cidade .

                           Maria José Rijo

 

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.278 – 16— Dez.—1994

Conversas Soltas

 

O Forte da Graça- Do Nascimento à ruína – XIII

No “Guia de Portugal” editado em 1927 – Raúll Proença – abria a sua referência à cidade de Elvas com alguns dados – hoje curiosas efemérides que tem interesse referir:

            * ELVAS (1)

 

            Hotéis (medíocres).

            Central (R. do Tenente Valadim, 1);

            Ribeiro (R. dos Sapateiros, 21).

            Automóveis José Leonardo.

            Trem de aluguer. Elvino Lopes (Largo do Colégio) J. Maria da Silva

            Cafés e Restaurantes.

           Internacional – (R. da Cadeia);

            Eduardo Santos – (R. da Cadeia).

            Correio e Telegrafo: L. de S. Martinho.

            Teatros – Elvense

            Praça de Touros

            Clubes – Elvense

            Sociedades desportivas – Glória futebol Clube – Sport Clube

            Pessoa mais conhecedora da terra – António Torres de Carvalho (director da Biblioteca e Museu)

            Bilh. post. ilus. Havaneza ( R. da Carreira nº 33).

            Ilum. públ. Electricidade

            Águas. Calcárias

            Desc. sem. Domingos (barbearias às 3ças feiras)

            Dia feriado – 14 de Janeiro

            Feiras – 3º domingo de Maio (exposição de gados); - 20 a 23 de Setembro (feira de S. Mateus e romaria do Senhor Jesus da Piedade, com a afamada procissão dos Pendões)

            Especialidades locais: Ameixas doces, azeitonas, carnes ensacadas.

            Fábricas de conservas de: - frutas, tomate, pimentão, etc;

            Moagem a vapor.

            Delegação da SPP.

 

            Refere o Aqueduto com uma citação que mais parece um recado para nós …

            «Várias gerações sucessivas –- escreve Ramalho Ortigão --  acarretaram para esta construção os materiais; e lentamente, pacientemente, foram colocando pedra sobre pedra, para que um dia a água chegasse a Elvas, e bebessem dela os netos dos netos daqueles que de tão longe principiaram a recolhê-la e a canalizá-la. Uma tal empresa é a humilhação e a vergonha do nosso tempo, incapaz de pagar com igual carinho ao futuro aquilo que deve à previdência, aos sacrifícios e aos desvelos do passado»

 

            Sobre o FORTE com a aparente simplicidade de que só é capaz um escritor de qualidade – conta:

            O Forte da Graça (mon. nac.), delineado pelo conde de Lippe em 1762, foi construído de 1763 – 92 sob a direcção do engenheiro francês Etienne e do general Valleré, elevando-se as despesas da construção a 767 contos.

            O forte é construído por um quadrado de 150m. de lado, tendo no centro um reduto circular com três ordens de baterias acasamatadas. «O forte declive das esplanadas, a grande altura da muralha do revestimento da escarpa e contra-escarpa, as galerias seteiradas concorrem para preservar o forte de qualquer ataque imprevisto» (para mais pormenores, cf. Rodrigues de Gusmão,in O Elvense, nºs 37 e 38, 1881)

            Do terraço (388m de alt). Magnífico panorama, cheio de austeridade e grandeza. A. Este., divisa-se a serra de Albuquerque, as estradas para Portalegre, Campo Maior e Badajoz, assim como estas duas últimas pov., e mais para e esquerda. A Penha e a serra de S Mamede. ao S. a serra de Olivença, - a  estrada que leva a esta vila espanhola, que no horizonte se vê branquejar, o Guadiana, a  casaria de Elvas, a serra da Falcata, Monsaraz, a estrada de Vila Boim, e mais próximo os arcos do  Aqueduto, o padrão das linhas de  Elvas e a ermida de  Santo Amaro.

            A Oeste, finalmente, as estradas para Barbacena e Monforte, e a serra da Malafa, onde os franceses colocaram as suas peças para bater Elvas e o forte da Graça. Os campos, muito cultivados desse lado, com terras dum vermelho vivo, são cobertos de olivedos e de searas.

            O forte tem servido várias vezes de prisão política, tendo ali morrido prisioneiro em 1832, o tenente-general conde de Subserra.

            ( 1 ) Para este Forte, de onde se  desfruta de tão vasta panorâmica,  vale a pena acrescentar que se entra por uma porta exterior designada por: Porta do Dragão.

Assim chamada por ser encimada por uma moldura com a figura do monstro mitológico em alto-relevo, tendo a envolvê-la dispostas com simetria peças de artilharia e outros instrumentos de guerra esculpidos em pedra.

 

            Na porta interior, existe um conjunto escultórico formado pelas armas nacionais cercadas por ornatos em estilo D. João V e ladeadas por duas panóplias.

            Por debaixo, numa grande lápide de mármore está gravada uma inscrição em latim que assim se traduz:

                   D.José I, Rei de Portugal

           D. JOSÉ I, AUGUSTO INVICTO, PIO, PARA IMPEDIR A ENTRADA DOS INIMIGOS NA PROVÍNCIA, SOB A DIRECÇÃO DE GUILHERME CONDE DE LIPPE, MARECHAL-GENERAL DO EXÉRCITO PORTUGUÊS, E DE SEBASTIÂO JOSÉ DE CARVALHO E MELO, PRIMEIRO CONSELHEIRO E MINISTRO, FUNDOU ESTE FORTE E O MUNINCIOU COMPLETAMENTE, ANO DE 1776

 

Implícito, está nesta memória, o orgulho da obra construída.

            Talvez um dia, o tempo a apague e ela seja esquecida de vez …

            Ou… talvez, quem sabe! … “Acordemos” com um olhar novo para o património que nos cabe defender e, em nós, desperte vivo o brio de sermos os legítimos sucessores de quem escreveu com grandes feitos e obras a História de Portugal de que estamos a dar testemunho tão descuidamente.

           

(1) Dados colhidos em “O Forte da Graça” por Domingos Lavadinho.

                        Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.277 – 9-Dezembrio- 1994

Conversas Soltas

 

O Forte da Graça- Do nascimento à ruína XII

Trinité Rosa situou acontecimentos e decisões com o rigor matemático do militar. (X )

            Amílcar Morgado relatou com a sabedoria factos que interpretou à luz da história. ( XII )

           

            Hoje, de João Falcato – Escritor e Jornalista – uma visão pessoalíssima (poética diria eu) extraída do seu livro “Roteiro de Amor” editado em Elvas em 1934 com crónicas publicadas neste jornal

 

Sentinela das Alturas

 

            Outra virtude que não tenha aquela construção imensa tem ela a de não ser possível levantarem-se na sua direcção os olhos, sem que ao espírito nos acuda uma evocação de grandeza e de entranhado amor à nossa terra.

            Depois, surge sempre o Forte da Graça, naturalmente, como pano de fundo para as lições do valor destas terras e do heroísmo das suas gentes. Aqui, mais do que em nenhum outro lugar é impossível não ensinar história. O que noutra qualquer parte será feito só por referência, liga-se nesta cidade a centenas de pedras, a um sem número. Da dissertação pura resulta sempre um panorama histórico incompleto, donde, lição proveitosa aqui só aquela que tem por fundo uma pedra, por cenário o cenário da própria história.

            Nesta sequência de ideias, agarrámos, num destes dias, um punhado dos nossos alunos e galgámos aquele monte onde se ergue o Forte da Graça ou o Forte de Nossa Senhora da Graça.

            Era um dia de sol radioso, e o horizonte alargava-se límpido, de modo mesmo que, antes de entrar a porta do Forte, já os nossos olhos estremavam bem o que é nosso e o que é alheio.

            Uma vez ali, quando transpomos a ponte levadiça da fortaleza, abstraindo mesmo de conhecimentos históricos, é impossível não imaginar pavorosos quadros de assédio pertinaz ou angústias de espera atenta, com uma população faminta por detrás da sua guarnição salpicada aqui e ali por decisões brilhantes, até vir enfim o raiar de um dia de tranquilidade.

            Mas, por mais que a sugestão do cenário nos chame, com os seus baluartes, as suas escarpas, as suas seteiras, os seus fogos cruzados, a um mundo de lendários heroísmos guerreiros, mesmo involuntariamente caímos num hino. Não a esses heróis que pela sua fama acodem sempre primeiro à memoria, mas àquele pequenino herói sempre esquecido que sacrificou a paz na sua casa, e até a própria, vida, para que moles imensas como a desta fortaleza se erguessem para o bem estar e sossego dos vindouros: todas aquelas pedras da primeira à última foram erguidas pelo trabalhador alentejano.

            Ó pedras morenas do Forte da Graça, carregadas em braços rudes dos rurais alentejanos, argamassadas com o suor que, durante meses, faltou ao labor das suas terras! Ó fossos do Forte da Graça, covas fundas em que os homens duma geração enterraram a saudade funda dos seus e do labor dos seus campos! Por vós, pedras inúteis, por vós, fossos vazios de combates e de heroísmos, ficaram as herdades sem ganhões, e a terra bendita sem a mão augusta do semeador!

E, um ano, outro ano, e muitos anos, levas de milhares de homens foram roubados aos campos para que tu, ó Forte da Graça, te elevasses na inutilidade da tua grandeza. Cresceu a erva nas searas, comeu o cizirão, o trigo, caíram sem braços que os colhessem os frutos das árvores, ressequiu-se e tornou-se estéril toda a úbere terra alentejana, para que as tuas pedras a que o destino roubou a gloria rubra das batalhas, se erguessem altaneiras, com a altivez da espera frustrada.

            Depois, século em século, jungiu o destino a ti o labéu duma má origem, mais poderoso do que o património propósito de entregar às tuas muralhas a defesa destas terras foi o clamor dos milhares de homens vergados ao peso das tuas pedras, foi a tristeza dos milhares de homens, que, privados da sua pátria por não terem a coragem de se vergarem ao peso das tuas pedras, foram comer o pão do exílio.

            Suor e sangue alentejano foram a argamassa em que os teus muros se ergueram, e, por irisão desse destino, nunca a ti foi dado, ó Forte inútil, presenciar as cenas heróicas para que te destinaram. Em vez de sangue de batalhas, sangue de trabalhador, em vez de sentinela altaneira da defesa da Pátria, presídio militar. Nas tuas muralhas, nos teus baluartes, em vez de heróis, soldados prevaricadores.

            Roubou-te o destino a glória, roubaram-te os homens a dignidade. Quem a ferro mata, a ferro morre. Também tu tinhas roubado ó Forte da Graça, os homens à sua terra, os corações ao seu lar.

            Triste destino na verdade o teu, Forte da Graça. Serás sempre como os monstros doutras eras que não conseguem meter-nos medo porque são fósseis, que não nos infundem respeito porque não souberam morrer com o seu tempo.

            Dum modo geral, tentar dar utilidade a qualquer obra ciclópica em desacordo com os tempos, é obra vã. Só um recurso há. Pedir-se a essas construções que sejam apenas um documento do seu tempo, para que nós as possamos ver com emotivo interesse histórico mas com despreocupada visão de qualquer problema actual. Nas muralhas do Forte da Graça só uma coisa ficava bem: os canhões que as guarneceram na espera do perigo que as circunstancias quiseram que fosse vã, mas que foi espera de amor por uma Pátria estremecida e ameaçada. É bem agradável ver à entrada da sua ponte levadiça rostos amigos a receber-nos mas na realidade só se justificaria aí um cicerone que soubesse simultaneamente elucidar quem lá fosse e afastar-se quando os olhos do visitante se embebessem pelo campo fora.

            Enquanto assim não for, pesará sobre a consciência dos homens a dor do teu amesquinhamento, Forte da Graça, forte sem combates, forte inútil. Forte, que das tuas alturas miras sobranceiro os campos alentejanos, vão é o teu orgulho. Esses campos, porque se estende a vista de quem sobe aos teus cimos, já uma primavera e outras primaveras ficaram secos, já um estio e outros estios ficaram sem fruto, sacrificados à vanidade da tua construção que só serviu para esse sacrifício.

                                                                                 

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.276 – 2 / Dez./ 1994

Conversas Soltas

 

O FORTE DA GRAÇA- Do nascimento à ruína XI

Elvas e o Forte da Graça no tempo das Invasões Francesas

 

“Preciosa achega do conhecido historiador de Elvas, Dr. Amílcar Morgado

 

            Como é sabido, os trabalhos de construção do Forte da Graça ficaram concluídos em 1793. Oito anos volvidos, surgiria a primeira oportunidade de pôr à prova tão importante obra de arquitectura militar.

            De facto, o governo português recusara aceder, às exigências de Napoleão Bonaparte para nos afastarmos da Inglaterra, país de que éramos tradicionalmente aliados e que o imperador francês queria derrotar militar e economicamente a todo o custo.

            Perante a recusa de Portugal em aceitar a intromissão de Napoleão na nossa política interna e internacional, este assinou com a Espanha uma convenção secreta, em Abril de 1797, para conquista do nosso país. Embora a guerra tivesse estado, então, iminente, por circunstâncias várias só veio a deflagrar em 1801, 4 anos mais tarde. Assim, em Maio desse ano, um exército espanhol invadia Portugal por vários pontos ao longo da fronteira comum e, no dia 20, apresentava-se em frente de Elvas, intimando o general governador D. Francisco de Noronha a render a praça, o que este repeliu com patriótica altivez, seguro como estava da solidez das suas fortificações e dos homens que as guarneciam. Após breves dias de cerco e em face da resposta altiva do governador, em contraste com outros chefes militares que se entregaram quase sem combater, o inimigo retirou-se, não se tendo registado mais do que escaramuças.

            Dado, porém, que noutros pontos do país o nosso exército sofreu várias humilhações por se encontrar desorganizado e ainda sem auxílio dos ingleses, o Príncipe Regente foi forçado a negociar a paz através do tratado de Badajoz. A troco dessa paz fomos obrigados a ceder Olivença e a pagar uma pesada indemnização em dinheiro.

            As exigências de Napoleão, entretanto, continuaram e, na sequência do tratado de Fontainebleau, a invasão do território nacional por tropas franco-espanholas, consumou-se.

            Assim, e reconhecida a inutilidade de um banho de sangue, em 1 de Dezembro de 1807, Elvas e os seus fortes foram ocupados sem luta por tropas espanholas que ficaram a governar conjuntamente com as portuguesas. Não tardou muito, porém, para que o desentendimento grassasse entre os invasores espanhóis, com o procedimento de Napoleão para com eles, pelo que, no ano seguinte, os franceses os vieram substituir.

            O governo da Praça foi, então, assumido, por um coronel francês e o Forte da Graça por um capitão, filho do mesmo coronel.

            Entre as medidas que tomaram de imediato, conta-se a redução das tropas portuguesas através do licenciamento dos militares que já tinham terminado a sua obrigação de serviço. Com os restantes organizaram alguns corpos que foram depois mandados para França, construindo a Legião Lusitana dos exércitos de Napoleão.

            Os portugueses, que haviam recebido sem luta as tropas comandadas por Junot, logo que estas começam a cometer todo o tipo de abusos, revoltaram-se.

            Elvas não foi excepção, pelo que, aos primeiros sinais de revolta, o coronel francês mandou transferir para o Forte da Graça muito armamento. Ele próprio, costumava dormir com frequência no Forte. Na noite de 8 de Julho, quando para lá se dirigia, caiu numa emboscada que lhe prepararam alguns militares e civis vindos de Campo Maior, de que resultou gravemente ferido. No entanto, só na manhã seguinte foi conduzido ao Convento de S. Domingos onde ficou em tratamento.

            A onda de ódio contra os franceses, que dia a dia ia aumentando, agravou-se mais depois de sufocada a revolta de Évora, a que se seguiu terrível saque pelas tropas do general Loison que, de passagem por Elvas, aqui deixou como governador o seu ajudante de ordens. Este, conhecedor de alguns actos praticados por patriotas, alertou o Juiz de Fora e a Câmara para o que se estava a passar, pedindo que tomassem as medidas convenientes para evitar ter de usar os rigores das leis militares.

            Já então as tropas inglesas tinham vindo em nosso socorro, sob o comando do general Wellesley, que derrotara Junot no Vimieiro. Assinada a Convenção de Sintra, foi permitida a retirada dos invasores com armas e munições.

            Poucos dias depois desta derrota dos franceses, o general Galluzzo, comandante de uma divisão espanhola, intimava o comandante das tropas francesas estacionadas em Elvas a retirar-se. Este recusou-se. Imediatamente saiu de Badajoz uma divisão (os espanhóis estavam agora contra os franceses) que pôs cerco ao Forte da Graça. No dia seguinte, perante nova intimação, o coronel voltou a recusar-se. Além da recusa, atreveu-se ainda a escrever ao Bispo, ao Juiz de Fora e ao Senado da Câmara, fazendo várias exigências quanto à segurança dos franceses hospitalizados e ao fornecimento de carne, palha e outros géneros para as guarnições francesas dos fortes e Santa Luzia e da Graça, além de um empréstimo pecuniário. Ameaçava, ainda, bombardear a cidade aos primeiros disparos contra as tropas.

            Perante esta situação, as autoridades civis de Elvas, juntamente com o Bispo, tentaram obter dos espanhóis a suspensão das hostilidades para evitar uma possível destruição da cidade pela artilharia do forte.

            A resposta dos espanhóis, porem, foi firme: se os franceses não se rendessem num prazo de seis horas, abririam fogo e as guarnições seriam passadas pelas armas. Entretanto, todos os militares franceses ainda na cidade se haviam acolhido já no forte a Graça. Assim, terminado o prazo, começou o bombardeamento que se prolongou por dois dias. Ao terceiro dia apareceu um contingente de tropas inglesas, à vista do qual os franceses resolveram render-se.

            Suspenso o bombardeamento, foi grande a satisfação dos elvenses, por verem capitular os franceses, tendo organizado de imediato uma junta provisional de governo, presidida pelo Bispo, que procurou pôr em funcionamento a ordem pública, tentando evitar, sobretudo, as vinganças contra aqueles que haviam colaborado com os invasores. Durante a 2ª e 3ª invasões Elvas não voltou a ser ocupada.

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.275 – 25 – Novembro – 1994

Conversas Soltas

 

   

O FORTE DA GRAÇA--Do Nascimento à Ruína – X

 

Forte da Graça – Uniformes – Colaboração gentilmente cedida pelo Senhor Coronel de Cavalaria José Luís Trinité Rosa -  que fez  um notável trabalho de levantamento de toda a uniformologia do Exercito Português – para a Direcção de Serviço Histórico – Militar.

 

            Com a Paz de Fontainebleau, em 10 de Fevereiro de 1763, que põe termo à Guerra dos Sete anos, inicia-se em Portugal um conjunto de reformas tendentes a dotar o Exército de uma nova organização que lhe imprima as características de um verdadeiro exército regular e permanente.

            O Primeiro Ministro de D. José – Conde de Oeiras, mais tarde, marquês de Pombal – terminada a Campanha de 1762, não descura o problema militar e retém, em Portugal, o Conde Guilherme de Schaumburg Lippe a quem encarrega de estabelecer a legislação necessária a consolidar a disciplina das Tropas e a promover a sua instrução.

            É, verdadeiramente, notável a acção do Conde de Lippe, em todos os domínios da esfera militar, produzindo legislação e regulamentos que vieram alterar profundamente a instituição colocando o Exército português em pé de igualdade – quer quanto à sua organização quer quanto à sua disciplina – com os melhores exércitos contemporâneos.

            Entre outra legislação, o Conde de Lippe faz publicar o Alvará de 24 de Março de 1764 que estabelece normas rígidas com vista a uniformizar os fardamentos como parte importante da disciplina militar. Este documento legislativo – acompanhado de um “Livro Iluminado” cujos figurinos (Oficial – Soldado – Tambor) serviam de modelo para todas as tropas – é bem um plano de uniformes que se manteve, com ligeiras alterações, até 19 de Maio de 1806, data em que – por decreto – se estabelece um verdadeiro Plano de Uniformes Militares que só entrará em vigor em 1807.

            No mesmo Alvará de 24 de Março de 1764 era criado o armazém Geral de Fardamento que funcionava junto do Arsenal do Exército, sendo igualmente criados dois Armazéns Provinciais, um em Estremoz e outro no Porto.

São os Uniformes, estabelecidos pelo referido Alvará, que vamos encontrar nos militares que constituíam a guarnição do Forte da Graça após ter terminado a sua construção em 1792. São Uniformes Militares Portugueses que, naturalmente, sofreram uma nítida influência da escola militar prusiana o que levou alguns críticos da época a classificá-los de “arlequinados” dado o seu exuberante colorido.

O Forte da Graça, integrado na defesa da Praça de Elvas, era guarnecido com militares dos regimentos de infantaria de guarnição, ao tempo, encarregados da defesa das praças-fortes. A Praça de Elvas, após a organização do Regimento da Província do Alentejo, dispunha de três regimentos: - Regimento de Infantaria 1º; Regimento de Infantaria 2º e Regimento de Cavalaria este, especificamente, destinado a missões de reconhecimento.

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O Uniforme do Regimento de Infantaria 1º de Elvas era o seguinte:

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== Oficial: - Cobertura da cabeça: Chapéu tricórnio, preto, guarnecido com galão dourado, com borlas e presilha douradas,

== Farda: - Casaca, de pano azul, com a gola, as bandas e os canhões, de pano encarnado, respectivamente, com dois, dezasseis, e quatro botões dourados, forros de casaca, em sarafina azul; dragonas douradas – Véstia, azul, com oito botões dourados, tendo colocada à cintura uma faixa carmesim com borlas azuis. – Camisa, branca, com um pescocinho (gravata) preto. – Calção, de pano, azul com seis botões dourados a apertar a perna. – Meias, brancas, com jarreteira dourada. – Polainas, de pano pretas, com botões dourados.

== Calçado: - Sapatos pretos

== Equipamento: - Boldrié, de anta, para segurar a espada.

== Armamento: - espada, direita, com copos de tigela e guardas simples.

== Soldado: - Cobertura da cabeça: - Chapéu tricórnio, preto, guarnecido com galão de pano amarelo, com borlas e presilha de lã amarela.

== Farda: - Casaca, de pano azul, com a gola, as bandas e os canhões, de pano encarnado, respectivamente, com dois, dezasseis e quatro botões de metal amarelo (latão); forros da casaca, em serafina azul; dragonas, de lã amarela.

-- Véstia, azul, com oito botões de metal amarelo (latão). Camisa, branca, com um pescocinho (gravata) preto. Calção de pano, azul, com seis botões de metal amarelo. – Meias, brancas, com liga, - Polainas, de pano, pretas com botões de metal amarelo.

== Calçado: - Sapatos pretos

== Equipamento: - Bandoleira, de anta, branca, segurando a baioneta.

== Armamento Espingarda de sílex.

== Tambor: - Cobertura da cabeça: - Chapéu tricórnio, preto, guarnecido com galão de pano, amarelo, com borlas e presilha de lã amarela.

== Farda: - Casaco, de pano, encarnada como a gola, as bardas e os canhões, também de pano encarnado, respectivamente, com dois, dezasseis e quatro botões de metal amarelo (latão); forros da casaca, em serafina, azul; dragonas de lã amarelas. – Véstia, azul, com oito botões de metal amarelo (latão), Camisa, branca, com um pescocilho (gravata) preto. – Calção, de pano, encarnado com seis botões de metal amarelo apertando na perna. – Meias, brancas, com liga. – Polainas, de pano, pretas, com botões de metal amarelo.

== Calçado: - Sapatos pretos.

== Equipamento Bandoleira, de anta, branca, colocada a tiracolo, para suspender a caixa de guerra.

==Caixa de guerra: - Com os aros pintados de encarnado e os esticadores, de corda dupla de tripa, pintados de amarelo, tendo, lateralmente, sobre fundo azul, o Escudo Nacional sobreposto a quatro estandartes, em cruz, com as cores das subunidades do Regimento.

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.274 – 18-Novembro-05

Conversas Soltas

 

FORTE DA GRAÇA - Do nascimento à ruína IX

O Forte da Graça foi erecto no reinado do Senhor D.José I - o reformador.

     Quando o rei entregou a alma ao Criador – sucedeu-lhe sua filha a Senhora Dona Maria I – a piedosa.

     Da Rainha e do Forte, com a moderada censura de quem sofre com tristeza os erros e injustiças que na sua pátria se perpetram, assim conta Rodrigues Gusmão:

 

     “A senhora D. Maria I, mais piedosa do que agradecida aos relevantes serviços do conde de Lippe, esbulhou este general da posse, em que esteve por muitos anos, da bem merecida gloria de haver dado o seu nome a este célebre monumento.

     Pouco depois de haver subido ao trono ordenou, que o forte de Lippe se denominasse de Nossa Senhora da Graça, por haver existido n’aquele sítio com esta invocação uma ermidinha.

     É certo, porém, que no povo d’ Elvas, e no Alentejo, onde esta fortaleza é mais conhecida, tem permanecido a denominação primitiva, reservando-se a prescripta pela rainha para a correspondência oficial entre as repartições do Estado e o governador do Forte”.

 

     Com a agudeza crua de olhos sem perdão assim os mesmos factos são relatados no livro de Costigan que até hoje nos tem dado apoio e companhia:

 

     “Quando o rei D.José expirou, a 23 de Fevereiro de 1777, e o governo foi confiado ao marquês de Angeja e à Igreja, tive, dentro em breve, ocasião de me convencer do meu erro; porque até então o estado desprezível em que se encontrava o exército não provinha senão da indiferença e do desleixo (causas suficientes para destruir um exercito em pouco tempo), mas agora o governo, como se não estivesse ainda satisfeito com tão desgraçada condição, parece apostado em a aumentar desonrando o próprio ser e existência do soldado. Parece que resolveram então desfazer-se o mais depressa possível dos oficiais estrangeiros. A rainha, por erradas noções de compaixão, soltou, indistintamente, todos os malfeitores dos regimentos, que o Marquês de Pombal deixava morrer de fome nas prisões, onde estavam encerrados por sentenças dos tribunais

militares; e a todos perdoando, fê-los reingressar nos corpos a que pertenciam ou mandou-os servir para fora do reino; e este procedimento abominável não é nada em comparação com a protecção concedida pelo ministro aos dois indignos oficiais do meu regimento, ainda suspensos, o major e o quartel-mestre, que o governo desta cidade, por ordem do secretário da guerra, em nome da rainha, pôs em liberdade, como tendo sido injustamente castigados pelo seu coronel, o qual nunca fizera nenhum relatório sobre o seu caso, nem dera o mínimo motivo da sua detenção. E podereis observar que a fim de encontrar um pretexto para reforçar o caso, e subir no conceito da sua soberana, o secretário da guerra recorreu à mais estupenda falsidade: em todas as estatísticas mensais, durante os anos anteriores, foi regularmente mencionada a clausura destes dois homens, assim como a sua causa, que toda a gente conhecia por informações várias. Assim eu soube, pela minha parte, que o que os dois traidores referiam nas suas cartas, relativamente à protecção que recebiam do marquês de Angeja, era verdade”.

 

 Visões mais ou menos claras...mais ou menos escuras... que conduzem à conclusão da verdade histórica de que não houve isenção nas decisões e a injustiça aconteceu.  

 

                       Maria José Rijo     

         

Ao Senhor Henrique Graça – um grande muito obrigado – pela atenção que fez favor de me dispensar – um esclarecimento e – um pedido.

    Na verdade – acertou! Meu Sogro, o saudoso capitão Trindade Rijo foi Comandante do Forte durante anos.

    Meu marido e seus irmãos, com os filhos de outros militares, brincaram soltos e felizes naqueles revelins que conheciam palmo a palmo e a que ligavam um mundo de recordações.

  O pedido: sabe por acaso quadras sobre o Forte que tivesse a gentileza de me enviar?

 

                    Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.273 – 11-Nov. – 1994

Conversas Soltas

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FORTE DA GRAÇA - Do nascimento à ruína VIII

Da importância do Forte falam as confessadas invejas e, a admiração a que todos os notáveis estrategas estrangeiros se rendiam depois de o visitar.

 Mas... continuemos com os antigos de F.A Rodrigues Gusmão.

         Visitou o Forte de Lippe o celebre Maturana, brigadeiro espanhol, chefe do corpo de engenheiros em Sevilha, considerado pelos seus compatriotas como um oficial distintíssimo.

“ Achava-se em Badajoz, no fim do ano de 1808, quando os franceses evacuaram o Forte de Lippe. Aproveitou o ensejo de ver aquela fortaleza, que excitou sempre a curiosidade e o ciúme dos nossos vizinhos, e cuja entrada, fora até essa epocha vedada a todos os estrangeiros, que não estivessem ao serviço de Portugal. 

     Parou embevecido na contemplação d’este soberbo monumento; causou-lhe tamanha admiração esta obra-prima da arquitectura militar (quase que também se pode dizer obra-prima de arquitectura civil pela beleza da casa do governador), que o achou muito próprio para n’elle se estabelecer uma escola, onde os jovens engenheiros, depois de imbuídos nos conhecimentos teóricos, viessem adquirir os práticos; por se achar alli reunido tudo quanto havia de mais notável em fortificação, e até muitas obras, que não eram conhecidas em sistema algum, e que concorriam para que reputasse quase inconquistável. (17)

     Folgaríamos, que fosse, adoptado o alvitre do sábio general; se fosse, não augmentariam, por ventura, as ruínas de algumas dependências do Forte de Lippe, que já eram grandes quando o visitamos. Afirmou-nos pessoa competente, que os reparos já então indispensáveis importavam em algumas dezenas de contos de réis”

 

     (17) Jornal de Coimbra, num, 33, pág.149.

     Manuel Ignácio Martins Pamplona Corte Real, governador, por Napoleão I, da cidade de Polótzk, mais tarde conde de Subserra ministro d’estado em Portugal, gentil-homem da câmara d’El-rei o senhor D.JoãoVI, grã-cruz, comendador e cavalleiro de diversas ordens nacionais e estrangeiras, morreu de tribulações a doença nas prisões do Forte de Lippe em Elvas, no dia 16 de Outubro de 1832.

    

     Curiosa a ideia de uma escola no Forte – aventada em 1808.

     E, porque não um pólo universitário!

     Hoje! - Agora!  

     Quem sabe?!?

 

     Talvez aquela estrela caída, lá no alto, morta e fria como meteorite, pudesse reganhar o brilho que lhe foi predestinado quando nasceu.

 

                                Maria José Rijo

 

 

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Jornal linhas de Elvas

Nº 2.272 – 4 – Nov. 1994

Conversas Soltas

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