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Ficou escrito...

Sei para onde vou @ pela ansia de galgar a distância @ de onde estou @ para o que não sou @ *** Maria José Rijo @@@@ Sonhos em que acreditei -- causas que defendi

Ficou escrito...

Sei para onde vou @ pela ansia de galgar a distância @ de onde estou @ para o que não sou @ *** Maria José Rijo @@@@ Sonhos em que acreditei -- causas que defendi

Conclusão...

Passaram cerca de quinze anos sobre a decisão – dolosa para a cidade de Elvas – que a Câmara de Rondão Almeida assumiu ao destruir a Quinta do Bispo, apesar do enorme empenhamento demonstrado por muitas personalidades de vários pontos do País, e de Elvas, em cartas, jornais e revistas pedindo e, explicando o porquê da sua – necessária – e justa conservação.
Hoje, onde havia árvores majestosas, vegetação exuberante, controlada, e, entre avencas e fetos, corria água das cascatas para os lagos, há agora lixo – lixo aos montes, lixo, ruínas – e mais lixo...
Na zona arrasada para construção, o empreiteiro, por falência (?), deixou em esqueleto metade das inestéticas moradias com que mutilaram a Quinta na sofreguidão doentia de fazer dinheiro a qualquer preço, mesmo sobre o arraso de importante parte da história de Elvas...
Alias, um dia se saberá porque aconteceu – e quem beneficiou – com tão vil negócio...
Foi um inútil desastre que não honra quem o perpetrou e, nos envergonha a todos por o termos consentido.
Comparou-se, certa vez, a si próprio, Rondão Almeida com o Marquês de Pombal.
Pombal, reconstruiu Lisboa após o terramoto de 1755
mas, dele o que ninguém esquece é a matança dos Távoras, que para sempre lhe turva a memória.
Rondão, promovendo a construção desenfreada que por aí vai, e não conseguindo impedir a perda de valências e serviços na Cidade, – tem sido, ele próprio, "o terramoto", como neste caso, e noutros, ao adulterar com arrebiques parolos a carismática sobriedade da feição de pedra adusta deste velho burgo medieval.
Pode Deus, na sua infinita misericórdia, perdoar-lhe.
Pode!
Porém – A História – essa, jamais.

Maria José Rijo

Elvas, 15 de Junho de 2008

 A Casa

A  casa de António Sardinha

A Nora Alta

Descida da Nora Alta

Portinha da entrada para a contramina da Nora alta

A Rua do Buxo 

 Amoreiras

A Rua das Amoreiras

O caminho para o Lago

 O Lago

 A Cascata

A Rua dos Lilazes

As Árvores 

Árvores

 Ruina

O Banco da Nora Alta

 O Parque Infantil

O Platano

O Platano Centenário

@@

 

A Quinta do Bispo

está assim !

 

Maria José Rijo

“Em torno de uma efeméride “

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.385 – 17-Janeiro-1997

Conversas Soltas

 

            Elvas 10 de Janeiro de 1997.

            Há 72 anos faleceu na sua casa da Quinta do Bispo – António Sardinha.

       Colho, desse local, que foi a “Versalles de Elvas” a imagem de hoje.

            Fica-me frente ás janelas.

            Convivo com ela diariamente.

            Ofereço-a aos meus olhos e legendo-a (com profunda mágoa) com a isenção a que me obriga o respeito pela nossa cidade, a verdade de que ela dá testemunho.

            Frequentemente a televisão nos mostra com entrevistas e imagens, soluções inteligentes encontradas para o enriquecimento de muitas terras do nosso país.

            O grande e belo Porto – hoje património do mundo – não desdenhou a sua quinta de Serralves.

            Foz Côa, não deixou afogar as suas gravuras.

            Algures, também no Norte, um autarca veio contar como um “eco-museu” está restaurando velhos usos e costumes... Velhos ciclos (o ciclo do pão, foi um dos referidos).

            Desse modo garante – vai promover turismo e defender da desertificação a sua terra situada no interior. Afirma que assim se criam empregos, desenvolve o comércio e a riqueza do seu concelho.

            Agorinha mesmo – o professor David Martins – falou do êxito conseguido por ele e pelos seus professores da sua escola que, em ligação interdisciplinar já levam dois discos de sucesso com actuações dos alunos de música de Vila Praia de Ancora.

            E anuncia que: - a autarquia vai propiciar o progressivo ensino da música às crianças desde a sua entrada nas escolas – gratuito -  portanto.

            É verdade que opções, são opções...

            Ao falar da Quinta do Bispo veio-me à lembrança outra responsabilidade que herdei e tenho a missão de recordar.

            Talvez os critérios de escolha tão afastados por vezes, das coisas do espírito tenham assustado o senhor Cónego Dr. Silvestre e o tenham decidido a reter em suas mãos os “nove grossos manuscritos da Genealogia dos Vasconcelos” que foram oferecidos á Biblioteca de Elvas como sua Excelência bem sabe.

            Ao menos – com ele – estarão a salvo o que não acontece à Quinta!

            Estranha é a sorte que impede sobre o património de uma cidade cuja rara beleza – a torna única – e tão carregada de história que quase parece um conto de fadas.

            Servir – servindo-a devia ser considerado um privilégio – embora com todo o melindre que essa distinção sempre confere.

 

 

Maria José Rijo

 

“Adeus Quinta do Bispo-(para ser cantado com a música de Elton John)

 

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.444 – 13 - Março - 1998

Conversas Soltas

 

“Adeus Quinta do Bispo "-

(para ser cantado com a música

de Elton John)

 

         Adeus Quinta do Bispo...Adeus!

         Mal sabias quando nas tuas árvores te revias

         Ao florir em cada Primavera

         Que para os homens a quem sorrias

         Só a força do dinheiro impera!

        

Adeus Quinta do Bispo,...adeus!

Respiras história, saudade, falas de bispos, poetas. -

        Fazes parte da cidade.

 

        Adeus Quinta do Bispo...adeus!...

         Assim se matam cidades, morreram civilizações    

                                               

         E nascem as provações da gesta        

            Que matam a paz dos tempos

         Os vindouros hão-de sussurrar a dor sem remédio

            De encontrar cimento sepultando o pensamento

            E não terão lágrimas que cheguem para chorar

            O que jamais se poderá recuperar

 

            Adeus Quinta do Bispo! Adeus!       

         Adeus - Rosa de Portugal !...            

         Adeus Rosa de Elvas, – Good  Bye !

 

            Como uma vela no vento

         Te perderás nas brumas do tempo

           O futuro te chorará sem remédio!

         Serás lenda, em versos te cantarão!...

         Mas serás vergonha - como sempre é a traição...

 

           E o chão bento da Capela

         De orago a S. Sebastião

         Que às “Invasões Francesas” foi poupado

            Duma vil profanação 

            Será profanado, agora, pela nossa própria mão...

            Adeus Rosa de Elvas!

            Adeus Rosa de Portugal!

         Good bye!

….

.

Almeida Santos, actual Presidente da Assembleia da Republica – uma das maiores inteligências de Portugal; Homem de cultura e saber absolutamente indiscutíveis - quer se goste ou não do seu percurso político - acaba de publicar um livro a que deu um título curioso : «- Preocupem-se por Favor.»

         Então eu, tendo entendido pelas palavras de apresentação da obra, (que escutei) de como, a todos nós, cabe a preocupação que só transformada em acção terá sentido – de defender este País, que é o nosso, de toda e qualquer agressão...

         Então eu...que acredita que nada acontece por acaso... Pensei: este recado é também para mim!

         Depois, quis mistificar a leitura da mensagem que acabava de me tocar enleando-me em considerações, tais como: - tu já disseste, tu já fizeste, e de nada valeu, etc. etc. etc...

         Pois é verdade que fiz, é verdade que disse, porém, sinto que, contra tudo e contra todos, – até contra a minha própria comodidade devo voltar ao assunto.

         E porquê? - É a interrogação natural – a que respondo:

         Eu pretendi lutar pela Quinta dentro dos moldes que entendia serem justos – respeitando os interesses da Cidade, da nossa Cidade. Quis salvar a Quinta pelo que ela representa – verdadeiramente.

         Melhor dizendo:

         Pretendi que a Quinta do Bispo se salvasse a si própria pelo peso que tem na história de Elvas, pelo local em que se situa, pela qualidade do desenvolvimento cultural e turístico que podia propiciar à nossa Cidade. Em resumo – por uma série de factores que, a meus olhos, estavam, e estão, à altura do seu merecimento...

         Posso ter sido mais ou menos feliz, nas minhas tentativas...

         Porém, reconheça-se – nunca usei nomes, nem ventilei números de cheques, importâncias de comissões, fotocópias de cartas, ou quaisquer documentos – porque, essas, não são contas do meu rosário, nem fazem parte do meu entendimento de rectidão na defesa de ideais.  

Não o fiz então, nem o faria agora! -. Nunca o faria! - Porque a Quinta do Bispo teria – (ou terá?) que ser salva pelo que representa e os esforços para o conseguir só poderiam ser à altura dos valores espirituais de que ela pode dar testemunho. A Quinta vale pelo que vale! E o seu actual proprietário – que em certa medida também foi vitima – facto que é preciso não esquecer – tem o legitimo direito de vender a peso de ouro, se o entender, toda a área que vai ficar separada pela avenida que a vai atravessar (e só não foi feita em vida da senhora dona Ana Sardinha por interferência do senhor Dr. Teotónio Pereira, que muito estimava a respeitável Senhora como pessoa admirável que era, e como viúva de António Sardinha)

Todo o resto, teria que ser património da Cidade a que pertence!

“Por favor! – Preocupem-se.!..”.

         Talvez outros métodos tivessem podido dar outros resultados, talvez! - Porem, é minha convicção que agir em nome de direitos também impõe deveres. Mais uma vez, estou tentando servir a cidade como posso e sei. De forma pouco realista para os tempos que correm - talvez - mas séria e  limpa como o que me motiva merece e, se me permitem - eu também !

         Todos nos lembramos ainda da triste experiência das gravuras do vale do Côa

O que para um partido político estava certo, para outro estava errado!

         Quando um Pais se joga assim aos dados mal vai esse Pais...

         Uma Câmara consegue libertar da fúria dos interesses cegos um espaço carismático de uma região, outra, mostra a sua eficiência desfazendo o que a primeira conseguira por justo convencimento. Não se cuida aqui de fazer melhor! - Trata-se de evidenciar a capacidade de mando que destas atitudes se julga poder extrair. E, assim se usa por vezes o poder sem virtude e sem nobreza, transformado apenas numa pobre demonstração de autoritarismo despido de senso e de razão, vazio de sensibilidade.

         Breve, muito breve, virá outro partido, que irá descobrir que se não respeitar ideias alheias (porque as próprias serão sempre as mais brilhantes no seu convencimento) será ainda mais poderoso e importante, mais admirável! 

         Moverá céus e terra para o demonstrar e outro plano de pormenor mais afoito surgirá...

Daí que, destes processos, se conclua: - ou a Quinta do Bispo se salva porque as pessoas entendem que há valores que o dinheiro não paga, ou jamais qualquer parcela da nossa terra, por mais sagrada que seja, estará segura, tenha ela o significado que tiver Almeida Santos sabe o que diz:

“Por favor – Preocupem – se!”

.O funeral que aí vem, vai passar à nossa porta...

Goodbye! Quinta do Bispo -Goodbye!....

 

Maria José Rijo

 

Sardinha – a Quinta do Bispo – Porquê? VI e último E...algumas coisas mais...

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.496 – 19-Março-1999

Conversas Soltas

   

                        

         As árvores da Quinta do Bispo, este ano, ainda floriram.

Elas não sabem que esta deve ter sido a sua última Primavera. Agora o portão da Quinta ostenta, como um condenado à morte, o aviso da sorte humilhante que a ganância e a insensibilidade dos homens lhe traçou.

         Olho pensativamente aquele solo, abençoado pela fertilidade, que o cimento, agora, vai cobrir e relembro aquele Bispo que, para não consentir que o chão sagrado da sua capela de São Sebastião, fosse profanado pelas tropas invasoras dos franceses, mandou, em nome da honra e da dignidade, que ela fosse apeada. (Foi ali na mesma, dita, Quinta)

         Vejo a terra indefesa a beber em paz estas chuvadas, como se nada pudesse interromper os seus ciclos normais de generosa produção! - E penso nas ironias do destino.

         Penso no que a Quinta representa como património histórico, intelectual, sentimental e cultural desta cidade, e no que poderia continuar a representar...

         Relembrei, aqui, opiniões várias de gentes de mérito que esta Nobre Elvas tem e sempre teve.

         Mostrei-me, expondo-me embora a incómodos, (que sofri) fiel e entusiasta discípula, que sou, de todos quantos, sem rebuço e generosamente defendem a sua pátria defendendo intransigentemente o Bem das suas terras, na riqueza da sua expressão de alma.

         Essa não é, porém, bastas vezes, a linguagem da política e dos políticos.

         Poderia ter usado cartas, e outros documentos que possuo, e que talvez provassem como nascem os declives por onde resvalam os caminhos que conduzem a estes tristes desfechos.

         Não o fiz ; e não me arrependo.

         Só assim posso sentir que ganhei a minha causa.

         Compartilhei, com quem o quis, ou soube, entender os motivos porque entendia que a Quinta deveria viver. Falei da sua história. Da sua linda e rica e bela história.

         Citei pareceres de gente insuspeita.

         Recebeu esta causa apoios comoventes: escritores, professores, jornalistas e, muito principalmente de gente anónima cheia de coração e sensibilidade que não enjeitou juntar ao que pensava a coragem de o assumir publicamente.

         A todos, hoje, aqui, volto a agradecer. É com gente como vós que se faz o melhor que na vida acontece

         Lutei para que a Quinta se salvasse a si própria se Elvas a amasse como ela merecia e lhe quisesse BEM, como penso deveria querer-lhe...

         Contrapus valores morais a valores monetários, a interesses financeiros.      É evidente que aconteceu o que era previsível.

 Como também é evidente que não será por isso que deixarei de lutar sempre, que por convicção o entenda, pelos valores perenes que sustentam a riqueza do espírito.

         Eu luto por ideais – seja qual for o resultado.

         Vencer, para mim, é isso: - Ter a coragem de remar contra a maré se for esse o desígnio da minha consciência.

         Às vezes, pergunto-me que gosto terá um desfecho favorável para quem não olha a meios para atingir os seus fins!...e nem o consigo imaginar...graças a Deus!

        Seguirá, agora, a Quinta a sua sorte, agoirada e anunciada...

Lembro, que algumas vezes li na imprensa local advertências – até dos apoiantes desta solução pesadelo – para o cuidado a ter com o excesso de população que por ali se vai gerar. Deus queira, que pelo menos, essa precaução não soçobre, também, frente aos euros...

Quando, por formação e por temperamento, se evita contradizer seja quem for, e só se assumem posições contrárias a quem quer que seja – quando se entende que é dever nosso não nos acobardarmos porque estão em causa não os nossos interesses, mas os colectivos...

Atitude que em Democracia se chama cumprir os deveres de cidadania, nem sempre se recebe a compreensão devida.

Quebrei, há tempos, a onda de adulação que se gerou por aí, quando foram mascarradas a alcatrão as ruas das freguesias.

Fi-lo porque sabia errada tal decisão e porque vi chorar gente de idade que não tinha hipótese de dizer publicamente, como sofria com tal “inovação”

Hoje, volto a esse assunto para contar:

A Aldeia da Luz vai ficar submersa pelas águas da barragem do Alqueva.

         Vão ser valorizadas, como aldeias históricas, algumas povoações, aldeia da Estrela, por exemplo., dado que constituirão um importante complexo turístico.

Uma das primeiras iniciativas para cumprir esse propósito é ARRANCAR O ALCATRÃO E REPOR A CALÇADA NA SUA FORMA TRADICIONAL! RAZÕES: além de não ser o alcatrão um vizinho saudável (até o acusam, alguns, como ao tabaco, de ser cancerígeno) impermeabiliza os solos que não permitindo, então, o escoamento das águas pluviais tornam assim mais prováveis as inundações nas casas baixas.

Vide:RuadeAlcamim.                                                                      Acusar sistematicamente de estarem contra este ou aquele os que não se demitem de estar A FAVOR DO BEM COMUM -  é erro crasso.

Até do ponto de vista do emprego, é mais útil criar cursos de calceteiros, com trabalho garantido, do que tisnar num só dia ,as ruas de uma Freguesia inteira.

Porque ninguém, em muitos casos, pode acusar, quem tem opinião própria, de estar a defender qualquer espécie de regalias ou reformas; é sempre de boa prudência, o comedimento no que se diz...

APENAS USANDO O SEU INALIENÁVEL DIREITO À LIBERDADE DE PENSAR, DE SE EXPRESSSAR E INTERFERIR NA VIDA DAS SUAS COMUNIDADES. QUALQUER INDIVIDUO SE TORNA CIDADÃO DE DIREITO

Fazer de uma qualquer pessoa, especialmente quando das suas boas graças se depende, uma divindade é pobreza de espírito.

Quem nunca tem dúvidas e aceita ser divinizado – Sobra-lhe em vaidade o que lhe falta em consciência moral e cívica, e em humildade e sabedoria de vida.

O que será sempre lamentável pelos danos e vítimas que causa, é minha firme convicção.

.

Maria José Rijo

 

Sardinha, a Quinta do Bispo - Porquê - V

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.494 – 5-Março – 1999

Conversas Soltas

 

 

          Limitar-me-ei hoje a dividir convosco um artigo impresso no jornal “Linhas de Elvas” nº 1563 de 9/1/81. Está assinado por um elvense ilustre de seu nome: Joaquim Tomaz Miguel Pereira.

         Homem de honra, escritor conhecido, poeta de Elvas, que muito embora tenha feito grande parte da sua vida na cidade de Coimbra, nunca, nunca, se alheou da sorte desta sua e nossa terra que ama, estuda, conhece como poucos e, por tais razões não se cansa de defender.

         Com a devida vénia, cedo-lhe gostosamente este” meu” espaço:

 

         “ A António Sardinha, bom português, pelo muito que amou e serviu Elvas “

         E por que não instalar na Quinta do Bispo a Casa-Museu da Grei Alentejana?

         (suprimo a primeira parte do artigo que vou citar e, entro directamente no que mais se liga ao que tenho tentado demonstrar ao longo do tempo sobre o tema em epígrafe)....

         Mas não foi para falarmos do António Sardinha político, poeta, ensaísta, doutrinador, que quebramos hoje um silêncio de vários anos. Foi para falarmos do munícipe elvense que ele foi nos últimos anos da sua fecunda vida, isto é, até 10 de janeiro de 1925, data em que morreu na sua Quinta do bispo, fronteira ao majestoso Aqueduto da Amoreira, ao qual se referiu em páginas de antologia. Aliás, numa atitude que só a honrou, a Câmara Municipal de Elvas dessa altura logo mandou colocar nas seculares pedras desse monumento a lápide que ainda hoje se pode lá ver: «A ANTÓNIO SARDINHA, BOM PORTUGUES, PELO MUITO QUE AMOU E SERVIU ELVAS».

         Tenhamos consciência de um facto: são os homens, os grandes Homens, que constituem a glória de uma pátria. Não é a multidão anónima e manipulada por cabecilhas de ocasião que faz a história ou acrescenta mais uma pedra à construção do edifício nacional. A história de Portugal foi feita por homens que partiam, contra ventos e marés, em pequenas caravelas, em demanda de outros mundos; a história desse colosso que se plasmou em pouco mais de cem anos, os Estados unidos da América, foi feita pelos pioneiros que se dirigiam para o oeste, lutando contra uma natureza inóspita, em frágeis carroças de tracção animal. Em tudo, o que interessa é o homem - o Homem que leva a carta a Garcia, o Homem que se afirma e levanta a voz perante um deserto de    mediocridades , mesmo que tenha que remar contra  marés...

         Elvas teve entre os seus muros um desses Homens, uma personalidade que a serviu e a amou apaixonadamente. Isso nos leva a afirmar que consideramos da maior actualidade a proposta apresentada, em 18 de Outubro de 1978, pela comissão Municipal de Turismo e que o “Linhas de Elvas” transcreveu na sua edição de 3 de Novembro seguinte: «...que pelos serviços competentes, seja preservada, nos estudos de planificação urbanística de Elvas, a Quinta do Bispo».

         Num momento em que existe uma Secretaria de Estado vocacionada para a defesa do património cultural, paisagístico e arquitectónico do País, a Quinta do Bispo  deveria constar, para já, do inventário do que há a conservar e a proteger entre nós. Nela se manteria bem viva a memória do grande Poeta que a habitou – , mas em sua homenagem - , homenagem que bastante grata lhe seria, ao lado de recordações que lhe dissessem respeito, deveria instalar-se um MUSEU DA GREI ALENTEJANA, um museu do Alentejo, Grei e Província que ele cantou em estrofes elevadas de sentimento e de beleza formal.

         Não tem Portalegre, a ”cidade-branca”, a Casa-Museu ”José Régio? Não se conserva no ridente Minho, a casa do torturado de Ceide? Não se visitam, por toda a Europa culta, as casas onde viveram os homens que de si deixaram indelével memória, como as que se encontram, a cada passo, na magnificente Paris (a casa de Balzac, a de Rodin, a de Victor Hugo e tantas outras?...)·             

 Se a Câmara Municipal de Elvas não puder arcar com a realização do proposto, que seja o Estado a actuar nesse sentido, integrando no património nacional, na devida oportunidade, a Quinta do Bispo e dotando-a dos meios que permitam a sua salvaguarda .( o sublinhado é meu )

          Mas Elvas inteira, a menina bonita dos olhos do grande Poeta que a cantou, apaixonada e vibrantemente, terá uma palavra a dizer. O que interessa, para já, é que a Quinta do Bispo, continuando a ser como hoje ainda, mercê do culto mantido pela excelsa Esposa do grande Português que foi António Sardinha, um verdadeiro lugar de Portugalidade, venha a ser, mais tarde, uma prova de gratidão prestada pela “Chave do Reino” a uma das maiores figuras nacionais que nela viveu.

 

         Após esta transcrição pergunto:                                                                                                                          

         Como se pode entender o que se passa com a Quinta?

Se o mais difícil, estava feito. Que era salvar a Quinta da ganância que leva à construção das “ brandoas” que descaracterizam as cidades e sepultam delas a alma e a história…

Como se pode entender o que se passa com a Quinta? - Volto a perguntar!

         Frente à opinião insuspeita de elvenses ilustres que SEMPRE, ao longo dos anos se bateram pela preservação daquela jóia elvense, como se pode entender tamanha reviravolta só para destruir o que todos recomendavam fosse poupado...

         Deixo a interrogação.

         Responda quem souber.

         É que eu não vislumbro resposta

 

 

 Maria José Rijo

 

Sardinha, a Quinta do Bispo – Porquê? – IV

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.492 – 19 – Fevereiro-1999

Conversas Soltas

 

 

Talvez seja a altura de relembrar aqui, alguns pareceres, que, na imprensa de Elvas, em épocas diferentes, foram aparecendo sobre o assunto em epígrafe.

Vou faze-lo por ordem no tempo, e, porque algumas das opiniões, provêm de gente ilustre, – infelizmente já falecida – espero que se entenda perfeitamente que eu não inventei esta preocupação.

Quer se encare de frente, quer se façam ouvidos de mercador, o problema existe.

Resolvê-lo é dever de Elvas, e essas decisões de problemas locais, - essas – e não outras – que, em série, se vão, mais ou menos, resolvendo por determinações exteriores, no nosso e em outros municípios, é que  dão a dimensão real do espírito de iniciativa e da visão de quem decide.

Em Sábado 2 de Maio de 1970 – dizia assim o “Linhas de Elvas” pela mão de Ernesto Ranita Alves e Almeida, então seu director.

Cito: “ À nossa mesa de trabalho acaba de chegar mais um livro, mais uma belíssima manifestação das qualidades investigadoras de Eurico Gama, sempre disposto a dar-nos a justa medida do que vale o seu nome no campo cada vez mais restrito dos que, sem qualquer turvo intuito de interesse próprio, se dedicam à constante e nobre tarefa de difundir apontamentos culturais, factos e  perfis de ilustres figuras elvenses ou com elas relacionadas por motivos de ordem espiritual. (o sublinhado é meu).

Referia-se assim Ernesto Alves, à obra: - “António Sardinha (páginas esquecidas e achegas para a sua biografia)” – que Eurico, na altura lhe enviara.

As referências são extensas, mas muito interessantes. Limito-me a destacar, por curiosidade, o que me parece ser menos conhecido.

 

“Vemos um António Sardinha integrado no meio elvense, cliente da Barbearia Samuel, felizmente ainda hoje em actividade; um António Sardinha presidente da Câmara Municipal; um António Sardinha polemista enfrentado na “Fronteira, a fogosidade talentosa de um arronchense ilustre – Teófilo Junior –, um António Sardinha colaborador da imprensa de Elvas, e muitos outros aspectos relevantes da sua biografia “local”.

Assim contava Ernesto Alves – repito – citando Eurico que em livro enaltecia a figura de António Sardinha.

Fecho este apontamento voltando a citar o meu saudoso amigo Ernesto, também ele, Elvense, com maiúscula e indómito defensor do bem de Elvas.

“Homens como Eurico Game têm qualquer coisa de missionários e devem ser apontados às novas gerações como paradigma e estímulo do que significa o trabalho olhando para o alto, defendendo abnegadamente a herança que os nossos maiores legaram ao património espiritual da Nação “

 

Que admira então, que, de vez em quando, este assunto que permanece latente na consciência dos elvenses interessados pelo seu património, ressurja, com a força de tudo quanto tendo fundas raízes no passado, e dando testemunho da história da nossa terra, nunca se afasta dos seus corações?

Em 6-7-1979 voltava a perguntar-se no Linhas de Elvas:

E por que não a Casa Museu António Sardinha? (e, seguia-se o texto)

Toda a cidade sabe o muito que se deve a essa figura impar das letras pátrias, que à sombra do Aqueduto escreveu a maior parte das suas importantes obras, hoje completamente esgotadas.

E, mais adiante: Pois agora ocorre-nos alvitrar à Câmara Municipal a aquisição da Quinta do Bispo, onde o Mestre do Integralismo Lusitano passou grande parte da sua vida, a fim de que seja transformada em Casa-Museu”.

No mesmo jornal, nº 1486 de 6-7-1979; também se podia ler:

“Já estava a primeira página composta, quando nos chegou às mãos a proposta que o vereador Joaquim Trindade apresentou na sessão de segunda-feira e que foi aprovada por unanimidade. Quem ler estas duas notícias há-de pensar que houve acordo prévio entre o jornalista e o edil. Podemos garantir que tal não sucedeu. O que houve foi mera coincidência, e julgamos de difícil repetição.

 

Passamos a transcrever a proposta, que diz o seguinte:

 

“É de todos sobejamente conhecido o que António Sardinha representa para Elvas, cidade onde viveu e onde produziu toda a sua valiosa obra literária.

Por duas vezes já a sua memória foi aqui devidamente comemorada, estando o seu nome gravado em placa no monumento mais significativo da cidade – os Arcos da Amoreira.

Em tempo oportuno foi o plátano anexo à sua residência na nossa cidade considerado de utilidade pública.

Perdida que foi, a favor de uma Universidade de Lisboa, a sua valiosa Biblioteca, inicialmente prevista para enriquecer a nossa Biblioteca Municipal, resta assegurar para o património cultural da Cidade a sua casa junto ao plátano já considerado de utilidade pública.

Assim sendo, proponho que a Câmara Municipal envide todos os esforços no sentido de que, ainda na vigência do nosso mandato, a casa onde viveu António Sardinha seja considerada pública.”

 

Chamo a atenção para a preocupação, aliás, justa e bem legítima, dos cidadãos de Elvas com a Quinta do Bispo, - propondo à sua Câmara que a comprasse e defendesse.

Comentar, para quê?

Apenas recordar que naquela época a Quinta ainda estava na família de António Sardinha, mesmo assim, em nome de valores perenes, erguiam-se vozes, embora, com o desconforto que se depreende, por tal situação...

De outra vez, se Deus quiser, citarei outras opiniões, também ventiladas neste jornal. Pelo menos vai-se rescrevendo a história e avivando recordações.

Quem sabe se acordando responsabilidades.

A esperança é a última coisa que morre...

 

Maria José Rijo

 

Sardinha, a Quinta do Bispo – Porquê? III

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.487 – 15 – Janeiro-1999

Conversas Soltas

  

         Pensei que deveria escrever sobre Aires Varela.

         Querendo faze-lo com o máximo de correcção fui, logicamente, beber na fonte de onde a informação é sempre limpa e indesmentível.

         Socorri-me do saber que nos foi legado por Victorino de Almada, no seu dicionário, onde, assim se conta:

         Aires VarelaO Sr Dr. Francisco de Paula de Santa Clara, a quem, como dissemos na introdução d’este trabalho, pedimos a fineza de nos dar alguns artigos completos a respeito dos mais salientes indivíduos do corpo eclesiástico elvense, começa a honrar-nos com uma colaboração mais assídua, subscrevendo os dois seguintes, que suprem muito vantajosamente os pobres esclarecimentos que poderíamos dar do historiador clássico Aires Varella, e de seu tio do mesmo nome, prior que foi da igreja de Santa Maria da Alcáçova.

         Eis as fontes. Agora, só a parte do relato que mais nos interessa.

Volto a citar:

............Também se chamou “D’Aires Varellaa Quinta, que presentemente se denomina do Bispo no rocio d’esta cidade. Há nos tombos da Câmara Municipal vários documentos que o comprovam ….

………..O bispo D. Manuel da Cunha houve depois a dita Quinta por compra, que fez aos herdeiros do cónego magistral, e legou-a à mitra de Elvas.

         Nos Arquivos d’esta diocese ainda existem vários instrumentos, que lavrou e assignou o notário apostólico Aires Varela; e o signal publico, de que usava, era assim: entre as maiúsculas A e V duas espadas cruzando-se pousavam sobre um altar, e ladeavam a cruz, que ali se erguia sobre a seguinte legenda: nec spe, nec metu.

         Mas as armas de sua nobilíssima família, e de que usava, traziam em campo de prata cinco bastões de verde em banda, e timbre meio leão rompante de prata e na mão direita um bastão.

         As obras da penna de Aires Varela ainda que ficaram na máxima parte inéditas, grangearam-lhe tal reputação, que ufana-se a cidade d’ Elvas de ver enumerar entre os clássicos da língua portuguesa o seu docto escriptor.

         Delle fazem a mais honrosa memoria Moreri e Nicolau António entre os estrangeiros; e dos nossos D. Francisco Manuel de Mello, o padre João de Vasconcellos, Antonio Carvalho da Costa, Diogo Barbosa Machado, fr. Jeronymo de Belem, Antonio Caetano de Sousa, J. C. de Figanière, Innocencio Francisco da Silva, e outros.

         As obras de Aires Varela que correm impressas são as seguintes:

         Successos que houve nas fronteiras dÉlvas, Olivença, Campo Maior e Ouguella o primeiro anno da recuperação de Portugal, que começou no Iº de Dezembro de 1640,

e fez fim no ultimo de novembro de 1641.”

Lisbôa, por Domingos Lopes Rosa, 1642. 4ª De 38 folhas numeradas só na frente.

         É extremamente rara esta relação; e d’um exemplar, que possuo, tirei copia, que dei à redacção do Trastagano. E foi a ditta relação reimpressa na Typographia Elvense, 1861.8º de 99 páginas.

         “Successos que houve nas fronteiras d’Elvas, Olivença, Campo Maior,e Ouguella o segundo anno da rcupreração de Portugal, que começou no 1º de dezembro de 1641 e fez  fim no ultimo de novembro de1642.”- Ibi, pelo mesmo, 1643. 4º De 112 paginas com algumas estampas, que representam a planta das praças tomadas ao inimigo.

         As obras, que Aires Varela deixou inéditas, consideram-se perdidas; e, segundo o testemunho de bibliographos de fé, erão as seguintes:

         “Successos que houve nas fronteiras d’Elvas, olivença, Campo Maior e Ouguella, e outros logares do Alemtejo, o terceiro anno da recuperação de Portugal, que começou em 1º de dezembro de 1642, e fez fim em o ultimo de novembro de 1643.,. O original estava depositado no cartorio da Serenissima Casa de Bragança, e foi devorado pelo incendio, que succedeu ao terramoto no iº de novembro de 1755. O Abade de Sever ali o viu.”

         “Genealogia de todas as Familias do Bispado d’Elvas”. Este manuscripto se conservava no meado do século passado em poder de Diogo Gomes de Figueiredo.

         Theatro das Antiguidades d’Elvas com a historia da mesma cidade e descripção das terras da sua comarca”, em folio, e constava de seis livros: 1º desde os celtas, seos fundadores, até a possuírem os mouros - 2º desde Elrei D. Affonso Henriques  até D.Fernando- 3º desde Elrei D. João 1º até D. Afonso 5º, - 4º desde elreiD. João 2º até D. Manuel - 5º desde El rei D. João 3º, até D Filippe 4º- desde El rei D. João 4º até ao cerco de Torrecusa.

         A esta obra se refere se refere D Francisco Manuel nas suas Cartas Familiares, publicadas em Roma em o anno de 1664. Na carta 62ª da 3ª centuria diz o erudito escriptor :” Mas quem quiser sabersuas memorias e antigualhas (d’Elvas), satisfará seos desejos, vendo o douto e diligente livro, que de sua historia tem composto o doutor Aires Varela, filho benemerito d‘aquela cidade, Governador de seu Bispado e Vigario Geral.”

         ....Já septuagenario e carregado de serviços passou d’esta vida para o seio da eternidade o licenciado Aires Varela em o dia 8 d’outubro de 1655......

....Jaz no cruzeiro da cathedral em frente do altar do Santíssimo Sacramento

......... E se o Cabido suffragou assim a alma do conego magistral, quantas orações não fariam os seos amigos mais dedicados?!

         Permito-me sublinhar as frases que se seguem:

quantas lagrimas e saudades lhe não espalharia sobre a sepultura o povo elvense?!

         Taes tributos se pagam à virtude! Vae já meado o terceiro seculo depois que viu seu ultimo dia o mestre e investigador das antiguidades da nossa terra, e todavia o seu nome vive e viverá na memoria das gerações.

         Na alta torre da cathedral d’Elvas espalham ainda os sinos som lugubre em o dia 8 d’outubro de cada anno; e os ministros da igreja, vestidos de lucto, gemem e fazem oracção sobre a sepultura do mestre saudoso.

         Se por acaso alguém se interessar por saber mais sobre Aires Varela, de quem a Quinta do Bispo, também teve o nome, o caminho para isso é a Biblioteca Municipal de Elvas.

         Julgo ter deixado aqui o essencial para se avaliar da qualidade e da importância do historiador, noutra ocasião, se me calhar, poderei mostrar, como ele foi integro nos seus pareceres e decisões e a grandeza moral, a dimensão humana que o tornou notável e credor do reconhecimento de todas as gerações de elvenses.

 

 Maria José Rijo

 

Sardinha, a Quinta do Bispo – Porquê? (II)

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.485 – 1/Janeiro /1999

Conversas Soltas

 

 

 

         Dedico estes comentários de hoje, a todos quantos me têm apoiado, – e são bastantes – e que simbolizo na pessoa do senhor Arlindo Sousa Pinto, que não conheço, mas a quem estou grata por ver como entende as minhas razões, e a quem devo estima.

Dedico ainda, e também, a João Carpinteiro e António Rodrigues, que muito estimo desde há dezenas de anos, por razões que eles próprios intuirão...    

Dedico também a quem comprou a Quinta empenhando a sua palavra na afirmação de que a habitaria e nunca a destruiria... (e, já até, a terá vendido a um cidadão espanhol - garantem-me!)

Dedico ainda ao actual senhor Presidente da Câmara, pela evidência de como, usa os quase setenta por cento de votos que tão generosamente lhe foram confiados, confundindo serviço, com mando....

Faço-o sem rancor, sem arrogância, – faço-o com a humildade de quem com a idade aprendeu, que é sempre tempo de repensarmos as nossas próprias acções e, as nossas próprias palavras.

       Pertenço a uma geração em que palavra, honra, dever, dignidade, eram valores pelos quais se vivia e lutava.

       Pertenço a uma geração em que não era preciso ser ilustre para perseguir tais ideais – bastava para tal, a consciência de ser gente, para se e pugnar para ser pessoa de bem. Gente credível, gente de compromisso.

.        Quando alguém pronunciava essas tais palavras, todos sabíamos que elas significavam sentimentos, compromissos, que representavam esses valores.

         Hoje, estão esvaziadas de sentido.

Perseguem-se ideais diferentes. Tomam-se por ideais valores materiais e com eles se pretendem substituir os valores morais. As pessoas são as mesmas. Têm as mesmas capacidades, as mesmas potencialidades. Apenas põem a tónica no imediatismo, na pressa desenfreada, na ilusão de que todos podem colher tudo ainda que o não tenham semeado, ou que nada semeiem.

Substituiu-se a decisão moral pela decisão política, que devendo continuar a ser ainda e principalmente decisão moral, se despe desse atributo para passar a ser apenas decisão de oportunidade ou, pior ainda, apenas de oportunismo. O brilho muitas vezes cega. Ofusca até a qualidade do material que brilha, mas seduz, embora também iluda.

Este ano está no fim.

O frio impera.

         A chuva chegou finalmente, apetece sentar ao lume e contar histórias. Não me vou furtar à invocação de um elvense – o senhor Alves – que eu conheci quando era estudante no liceu de Beja e ele era um velho Senhor, cheio de dignidade que percorria os bairros pobres protegendo os necessitados, recolhendo crianças órfãs, despojando-se de tudo em favor de quem precisasse.

O senhor Alves pertencia a uma família Abébora. Gente de meios que habitava uma grande casa na rua de Alcamin. Cresceu com a psicologia do menino rico inútil. Frio, altivo, arrogante. Ganhou fama e proveito de conquistador e usou e abusou de mulheres e moças quantas quis. Até que um dia comprometeu a filha de alguém que foi capaz de o “acordar”. Fê-lo sob um terrível estado de embriaguez. Quando sóbrio, ao tomar conhecimento dos excessos cometidos e das suas consequências prometeu sob palavra de honra que jamais na sua boca entraria uma só gota de álcool que fosse.

         Quando no fim da vida ao ser-lhe ministrado um novo medicamento. Não tendo já capacidade para ler a sua composição indagou o que continha e ao ser-lhe dito que continha vinho do Porto disse: não tomo nem que daí dependa a minha morte. É que eu prometi a” um homem de bem “que na minha boca jamais entraria álcool.

         Eram assim os caminhos da dignidade...Da honra...Da palavra empenhada.

         Penso e repenso no que vejo e ouço acontecer...

Às vezes, muitas vezes, nem já se põem em causa as decisões tomadas, mas, sim, os caminhos que a elas conduziram. 

           

    O ano de 98 despede-se. Ponho algumas das estrofes da Epifania dos lilases de António Sardinha a perfumar o seu adeus e com elas, também agradeço a quem me lê desejando um muito feliz 99.

 

 

Florescem os lilases brandamente,

florescem os lilases com brandura.

E o seu perfume tépido, envolvente,

de tentações povoa a noite escura.

 

De tentações povoa a noite lenta

o aroma dos lilases em segredo.

Há no silêncio um bafo que adormenta,

um bafo perturbante de bruxedo.

 

 

         FELIZ 1999

        Maria José Rijo